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Ricardo Costa

O PS está obrigado a apoiar Alegre

No PS há quem ainda discuta o inevitável. O apoio a Manuel Alegre não é uma opção, é a consequência natural da candidatura desastrada de Soares. No ano passado, Sócrates pediu ajuda a Alegre. Agora chegou a vez de pagar a conta.

Ricardo Costa (www.expresso.pt)

Os partidos políticos adoram perder tempo a discutir assuntos que têm um fim conhecido. Mas mesmo assim fico espantado em ver o número de almas do PS que esperneiam para tentar que o PS não apoie Manuel Alegre. O meu espanto tem uma razão simples: o PS está obrigado a apoiar Manuel Alegre e não tem hipótese alternativa. Qualquer outra solução seria arriscada, errada, suicida, tonta ou tudo ao mesmo tempo.

É óbvio que o PS tem muitas razões de queixa de Alegre. Podia encher este artigo com argumentos para José Lello declamar à varanda antes de se atirar cá para baixo. Mas o apoio a uma candidatura presidencial não depende dos estados de alma de Lello, Vitalino ou Capoulas Santos. Depende de razões bem mais simples. O PS vai apoiar o candidato que já existe e que está bem lançado. Só isso.

A obrigação de apoiar Alegre ficou traçada nas últimas presidenciais. Nessa altura, por razões históricas e pessoais, o PS não teve a coragem de dizer a Soares o que todos pensavam: aquilo seria o seu Alcácer-Quibir. Agradecidos por tudo o que Soares fez pelo país, caminharam para o desastre sabendo o que os esperava. Só não adivinharam a humilhação decretada pelo segundo lugar, destacado, de Manuel Alegre.

Há cinco anos muitos socialistas passaram a olhar para Alegre como o inimigo a abater. No meio da gritaria e da raiva não perceberam uma coisa simples: com um resultado daqueles, uma recandidatura de Alegre nunca dependeria do PS; o PS é que passou a estar totalmente dependente de Manuel Alegre. E é isso que está a acontecer, nada mais nada menos.

A maneira que o PS tinha de evitar a situação passava por arranjar outro candidato muito sólido. Não o fez, nem a tempo nem com consistência. E achar que Fernando Nobre já preenche esses requisitos é absurdo.

Havia, obviamente, um facto que teria afastado Alegre da rota do PS: a sua saída de militante. Mas isso foi gerido com frieza e equilíbrio. No ano passado, mais precisamente no seu dia de anos, Alegre anunciou que não voltaria a ser deputado mas que não abandonava o PS.

José Sócrates geriu sempre o dossiê Alegre de muito perto. Fez tudo o que pôde para ele não abandonar o partido e nas legislativas pediu-lhe para discursar no comício de Coimbra, ao lado de Ana Jorge. Agora chegou a hora de cobrar. E Sócrates sabe há muito tempo que vai pagar a conta. Deixará Alegre correr em pista própria. Se houver festa, aparece no fim. Se não houver, dirá que não havia outra opção. E não havia.

Texto publicado na edição do Expresso de 17 de Abril de 2010