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Expresso

Todos os homens

A voz foi ficando mais grave e trémula, enquanto adquiria ainda mais drama; o corpo foi-se curvando, mantendo elegância, e aproximando-se da imagem do “pequeno judeu que escreveu a Bíblia”. Mas, em Leonard Cohen, o tempo nunca fez sentido. Cohen nunca foi um homem da sua época, nem de nenhuma época. Na verdade, nunca foi jovem. Nasceu já com uma maturidade absoluta, vestido com um fato de corte impecável e chegou ao mundo da música tarde (para conquistar todas as mulheres?), quando já havia ganho reconhecimento como poeta e escritor. Se bem que se tenha aproximado dos movimentos folk e da poesia beat, dificilmente se pode dizer que pertencia a um grupo ou fazia parte de uma tendência.

Mas se o tempo não ajuda a compreender o legado de Cohen, a sua biografia ajuda a revelar a sua obra. O órfão que se torna aos nove anos o único homem de uma casa de mulheres; o judeu oriundo de uma das famílias mais influentes da comunidade judaica do Canadá; o pré-adolescente que aprende hipnotismo para despir a empregada; o estudante que se envolve nos círculos intelectuais de Montreal; mas também o jovem escritor que parte em busca de sucesso literário em Nova Iorque e Londres; o músico que tem um sucesso súbito e que vive uma vida boémia, repleta de anfetaminas, álcool e muitas mulheres; para logo depois buscar o recolhimento pleno de brancura, em Hydra, nos braços de Marianne; o homem maduro, de uma religiosidade profunda, que se recolhe num mosteiro budista, levando um quotidiano de um ascetismo radical, mas que nunca abandonou o judaísmo; o amante convicto de um rol infindável de musas; o Pai dedicado de Adam e Lorca. Cohen foi todos os homens e esteve em todas as suas canções.

É certo que entre os 14 álbuns que lançou há elementos de mudança. Ao princípio, a voz era menos espessa e a guitarra bem mais presente (que conta a lenda aprendeu a dedilhar com um espanhol radicado no Canadá, amante de Lorca, e que se suicidou após algumas lições com o jovem Leonard), depois da trilogia inicial, o ambiente foi ficando mais denso (com Songs of Love and Hate), para mais tarde enveredar por uma “parede de som”, numa trip alucinada, em colaboração com Phil Spector (Death of a Ladies Man). Na passagem dos anos 70 para os 80, perdeu algum fulgor e reconhecimento público (Various Positions começou por não ter distribuição nos EUA) para começar uma nova fase a partir de I’m Your Man, de voz mais grave e acompanhado pelos teclados roufenhos e de gosto duvidoso que se tornariam imagem de marca. Pelo caminho, a compilação de reinterpretações, I’m Your Fan, primeiro, e um desfalque financeiro, depois, que o devolveu às tournées e tornou possível uma notável trilogia final (Old Ideas; Popular Problems e You Want It Darker), deram-lhe o reconhecimento de um público mais alargado.

Há, contudo, no essencial, elementos de continuidade entre Songs of Leonard Cohen e o recente You Want It Darker. A toada melancólica e um horizonte sombrio, as melodias envolventes, variações incessantes do mesmo canto lento, mas, acima de tudo, temáticas persistentes: a tentativa de lidar com a beleza absoluta através da palavra (o que é próprio dos “oprimidos pelas figuras de beleza”), o confronto com o juízo final (“I'm ready, my lord”, canta a abrir You Want it Darker), um ensimesmamento reflexivo que coexiste com uma sexualidade exuberante e uma celebração do amor, transformada em nostalgia sobre as paixões passadas. Sobre tudo pairou sempre um espectro apocalíptico (“I’ve seen the future and it’s murder”), só superável pelo diálogo com Deus. Cohen pareceu sempre ter sido deixado sem escolha – para além de conferir um sentido ao amor, à sexualidade e à religiosidade através do “dom de uma voz dourada”. Stranger Song, tema marcante do álbum de estreia, sugere o mesmo descontentamento e busca de redenção (“It's true that all the men you knew were dealers/who said they were through with dealing/Every time you gave them shelter”) que Treaty, canção que, sintomaticamente, encerra o derradeiro disco (“We sold ourselves for love but now we're free/I'm sorry for the ghost I made you be/Only one of us was real and that was me”). Nos dois casos, a paixão é um alimento para a insatisfação do espírito.

É conhecida a conversa entre Dylan e Cohen, onde o agora prémio Nobel terá dito, com convicção: “Leonard, tu és o número 1; mas eu sou o número zero”. Talvez seja uma forma de descrever a diferença. Dylan é um fenómeno cultural, um reinventor incessante do cânone. Cohen é a versão mais perfeita do cânone. A forma superior como ligou poesia com música foi seguida por muitos, mas está longe de ter sido alcançada.

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