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Morte de Michael Jackson com forte impacto na Internet

A morte de Michael Jackson foi o maior acontecimento súbito global que jamais vi na Internet. Ao ponto de ter produzido o tipo de asfixia e paralização dos sites próprio de acontecimentos previstos, como eleições, e súbitos, como os desastres aéreos. Clique para aceder ao índice do DOSSIÊ Michael Jackson morre aos 50 anos

Isso e a reconfirmação do Twitter como canal privilegiado para veicular este tipo de informações, tendo batido rádios, televisões e até o Google News, são as duas principais notas da noite.

Há que tempos que não se registavam negações de serviço em jornais. O Los Angeles Times esteve em baixo. O site da publicação que primeiro noticiou a morte, a tmz.com (que pertence à AOL), esteve também em baixo a espaços. O site de Perez Hilton, dedicado à vida e morte das celebridades, também se foi abaixo com a procura súbita de confirmação e informação adicional da notícia da morte.

Estas paragens foram, aliás, alvo da surpresa de jornalistas que seguem a web a par e passo. MG Siegler titulou, no Techcrunch, que a web colapsou debaixo do peso da morte de Michael Jackson (link) .

Em Portugal os sites dos jornais e televisões foram rápidos a apostar na notícia da TMZ, longe do excesso de cuidado da CNN que, escaldada por acontecimentos recentes, passou cuidadosamente o prime time americano a noticiar as notícias dos outros e só admitiu Jackson morto quando o médico-legista confirmou óbito à estação.

O tráfego disparou. No Público, a notícia chegou antes da meia noite às 30.000 visualizações e 100 comentários - tendo o tráfego triplicado em relação à media daquele período. Nos outros sites não terá sido muito diferente.

Wikipedia: fichas protegidas contra vandalismos

A ficha de Michael Jackson em língua portuguesa foi editada a partir de Portugal (um cliente de algum dos serviços Internet da Portugal Telecom) eram 21:51. Tentou colocar o dia da morte. Durante alguns minutos, a ficha teve várias actualizações, com os editores a manterem o cuidado de só deixar a informação do falecimento assentar depois de confirmada.

Os brasileiros deram o seu contributo para a discussão, até porque também os seus sites noticiosos apostaram cedo, como os portugueses, na notícia da TMZ.

A ficha entrou finalmente em modo protegido às 22:16. Mas actualizada com a data de falecimento.

Já a ficha em língua inglesa entrou em modo protegido mais cedo. Assim que sairam as primeiras notícias da hospitalização a ficha era alterada. Eram 21:12. Mas foram poucas edições até 21:45 quando, prevendo o habitual surto de edições bem intencionadas e de vandalismos, um editor fechou o "cadeado" virtual. A partir daí foi sendo actualizada apenas pelos editores da Wikipedia com o estatuto de administrador.

Twitter: Jornalistas portugueses atentos...

Às 21:46 de Lisboa o @BreakingNews transmitiu no Twitter o sumário da notícia da TMZ, publicada minutos antes. O primeiro português a dar pelo assunto foi, curiosamente, um jornalista. Ricardo Rosa ( @rickyrosa), da SIC.pt, "retuitou" (jargão para retransmitir um tweet de outra pessoa) aquela nota do Breaking News. Eram 21:49.

Não menos curioso é verificar a quantidade de jornalistas atentos aos primeiros sinais. O fotógrafo Vasco Casquilho ( @Va5co) "tuitou" o transporte de Jackson, em coma, para o hospital, no mesmo minuto que Ricardo Rosa. No minuto seguinte, 21:50, o terceiro português a mencionar o tema foi director-adjunto do Público, Paulo Ferreira ( @paulferreira1). Que, aliás, estava duplamente atento, pois que fechava a edição do jornal e esperava confirmação para mudar a primeira página.

Nessa espera esteve também o director do Expresso, Henrique Monteiro ( @HenriquMonteiro), embora por outra razão: o Expresso avançou com a informação original da TMZ e o director estava atento às edições dos jornais e televisões "pesados" americanos, que demoraram um pouco a confirmar. Do seu iPhone, Monteiro chegou a "tuitar" interrogativamente se teria havido precipitação, pois que o New York Times continuava a não dar a notícia. Mas não: a decisão de confiar no TMZ revelou-se correcta.

(Nota: decidir em que fontes confiar é um dos recursos do jornalista mais importantes no ambiente info-riquíssimo da Internet contemporânea. Como ficou bem patente no caso das eleições no Irão, o tempo da ingenuidade já passou e o Twitter é palco de violentos golpes e contra-golpes de informações, misturando-se fontes credíveis com figuras inacreditáveis, incluindo agentes dos serviços secretos, embaixadas e e muita, muita gente a produzir ruído.)

... e vitória sobre o Google por KO

Daí em diante, e até às 02:00 da madrugada desta sexta-feira, contei 1.881 tweets de portugueses contendo o apelido de Michael Jackson. Isto corresponde a 19,89% do total de 9.453 tweets registados no período de 5 horas entre as 21:00 de quinta, dia 25 e as 02:00 do dia seguinte.

Simplificando: na noite de ontem, 1 em cada 5 tweets portugueses diziam respeito à morte de Jackson.

(Para a contagem usei os dados que recolho no âmbito do TwitterPortugal, que rastreia 8.585 contas de portugueses.)

Esta percentagem é muito elevada. Não tenho termo de comparação nacional, mas empiricamente estimo que tenha sido o mais global de quantos temas já foram tendência na twitosfera portuguesa.

A estimativa vem na sequência de um recorde inédito no Twitter à escala planetária: na noite em que Michael Jackson morreu o seu nome foi responsável por 9 - nove! - das 10 primeiras tendências observáveis no Twitter. Num dado momento da noite elas eram: Pop RIP Michael Jackson #MichaelJackson LA Times Thriller Ed McMahon (o único não-relacionado) MJ's RIP MJ P Micheal Did Michael Jackson

Empurrada para fora da lista por volta da meia noite, às 4 da manhã já o tema #iranelections voltara à lista das 10 tendências do Twitter, onde tem estado nas últimas duas semanas. Aliás, nunca a vira de lá sair.

Os números portugueses estão de acordo, também, com outras observações como a de Ethan Zuckerman, do Berkman Center for Internet and Society da Universidade de Harvard. Da sua conta @EthanZ "tuitou" que Jackson tinha passado as eleições iranianas e a gripe e escreveu: "os meus scripts de pesquisa veêm que aproximadamente 15% de todos os posts no Twitter mencionam Michael Jackson. Nunca vira o Irão ou a gripe passarem os 5%". Zuckerman foi citado pelo New York Times.

O que já se tinha visto e agora se reforçou foi a troca do Google News (e da pesquisa em geral) pelo Twitter. As primeiras informações chegaram por este canal e as primeiras confirmações também. Ainda o Google News apresentava as notícias no tom "estado de saúde desconhecido" e já no Twitter se recebiam as confirmações, a começar pela do Los Angeles Times, que terá sido - calculo, sem meios de garantir - o primeiro jornal a confirmar por outras fontes a notícia avançada pelo TMZ.

Finalizando: o papel do canário na mina coube ainda à Wikipedia - que permanece como o sítio mais rápido para perceber as alterações no meio ambiente mediático. No Twitter pode-se perceber a extensão dessas alterações e confirmar não apenas a tendência, como as fontes e as informações. O Twitter é, também, um admirável suporte de transmissão da informação, levando-a a todo o lado, incluindo os meios incapazes, por natureza, de compreender a especificidade da Wikipedia. A velocidade e a elasticidade do Twitter derrotaram a Google enquanto eixo municiador das multidões de editores profissionais e amadores que hoje compõem os media globais. E isto apesar dos problemas técnicos do serviço, que também teve "apagões" durante as cinco horas piores da notícia da morte de Michael Jackson e acabou mesmo por desactivar parcialmente a pesquisa, que durante horas respondeu com atrasos de 10 e 20 minutos.

Sendo um dos ícones da cultura pop à escala mundial, a morte de Michael Jackson tinha de ser um acontecimento mediático à justa proporção da sua popularidade.

Paulo Querido, jornalista