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O mundo dos outros

Sinais de esperança?

José Cutileiro (www.expresso.pt)

Katyn: na quarta-feira, o primeiro-ministro da Rússia, Vladimir Putin, recebeu o primeiro-ministro da Polónia, Donald Tusk, para irem juntos à floresta de Katyn homenagear as vítimas do massacre de oficiais polacos capturados no começo da Segunda Guerra Mundial, massacre proposto por Béria, decidido por Estaline, aprovado pelo Politburo do partido comunista da URSS e executado por agentes da NKVD, polícia política precursora do KGB, faz agora 70 anos. Cada um depôs uma coroa de flores em homenagem aos 20 mil oficiais do exército e mais de mil funcionários, intelectuais e figuras de relevo da política e da sociedade polacas que o Kremlin decidira assassinar. Em 1943, Berlim anunciara que o exército alemão invasor da URSS descobrira valas comuns em Katyn. Moscovo atribuíra logo o massacre aos alemães; essa linha foi mantida durante toda a Guerra Fria e imposta aos dirigentes comunistas da Polónia. Só Gorbatchov autorizou a divulgação de documentos provando a culpa soviética mas pouco mais se falou disso e ainda hoje alguns dirigentes políticos russos recusam a verdade. O heroísmo soviético - russo - durante a guerra, com 20 milhões de mortos pela vitória, é a pedra onde assenta a dignidade da Rússia moderna e há patriotas com medo de a conspurcar. Até há pouco Putin não estava longe deles mas em Katyn, se não pediu desculpa e lembrou outros mortos, reconheceu solenemente os factos: "Nesta terra jazem cidadãos soviéticos queimados pelas chamas da repressão estalinista dos anos 30; oficiais polacos fuzilados em segredo; soldados do Exército Vermelho, executados pelos nazis." Simbolicamente, abriu-se uma fase desanuviada nas relações entre Rússia e Polónia, que deverá baixar tensões na Europa.

Praga: na quinta-feira em que escrevo, Obama e Medvedev assinam em Praga um tratado de redução de armas nucleares que poderá levar a luta mais eficaz contra a proliferação nuclear se o esforço de redução americano (os russos, com menos armas, terão de reduzir menos) e a filosofia de Obama na matéria forem levados a sério pelo resto do mundo. Depois Obama jantará com os chefes políticos de países da região, hoje membros da União Europeia, que antes pertenciam à órbita soviética. Estes andam muito inquietos: o Kremlin, que de patrão passou a papão, entende-se bem de mais com Berlim, Paris e Roma, e o protector transatlântico, por respeito de susceptibilidades russas, deixou cair projectos de instalações antimísseis na Polónia e na República Checa (Washington queria-os contra o Irão mas não era só assim que Varsóvia e Praga os viam). A visita pastoral de Obama tem por fim convencê-los de que não serão sacrificados em qualquer melhoria das relações russo-americanas. Nos últimos tempos Obama tem vindo a passar de messias a político astuto. Se calibrar bem a mistura talvez conforte a Europa de Leste, consiga entender melhor os europeus em geral e perceba que a relação transatlântica lhe dá jeito.

Texto publicado na edição do Expresso de 10 de Abril de 2010