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O mundo dos outros

O pátio de recreio de Deus

José Cutileiro (www.expresso.pt)

Assim chamou à Polónia Jan Kochanowski, o Camões dos polacos, e desde o Renascimento até ao século XX não terá havido mudanças que tornassem obsoleta a alcunha porque foi esse o nome que o historiador inglês Norman Davies deu à sua história da Polónia publicada em 1981. Depois de um século XIX em que a própria existência do país foi posta em causa, o século XX veio esfregar ainda mais vinagre na grande ferida. Com a identidade restaurada e Varsóvia como capital no fim da primeira Grande Guerra essa independência durou 20 anos. Em 1939 a Alemanha de Hitler invadiu-a a ocidente e a União Soviética de Estaline, ao abrigo de uma cláusula secreta do pacto germano-soviético, invadiu-a a oriente. Ao país dilacerado foram impostos pelos alemães o gueto de Varsóvia, perseguição a judeus e também a católicos e ciganos, Auschwitz e Majdanek, e pelos russos a decapitação das elites no massacre de Katyn. Quando, em 1945, a guerra acabou Roosevelt e Estaline tinham definido zonas de influência na Europa e a Polónia ganhou terra à Prússia mas ficou subjugada pelos russos. Por muitos anos, sinais de arrependimento dos seus algozes só vieram da Alemanha, com Willy Brandt caindo de joelhos diante do gueto de Varsóvia em 1970. Da URSS veio opressão até 1989, reconhecimento relutante e discreto da culpa de Katyn por Gorbatchov em 1990, que o Partido Comunista continua a não admitir e mais nada - até há poucos dias. (Entretanto, para não deixar abater a disposição paranóide dos polacos quando olham para o outro lado das fronteiras, alemães e russos projectaram em comum um oleoduto pelo fundo do Báltico evitando a Polónia. Foi no tempo de Schroeder que hoje é funcionário da Gasprom - mas Ângela Merkel não o repudiou).

Até há poucos dias. Na quarta feira, 7, em Katyn, Putin depôs uma coroa de flores ao lado da do primeiro-ministro polaco, Tusk, e condenou o massacre de 1941. E quando no sábado, 10, o Tupolev caiu e a elite polaca lá foi decapitada outra vez, a explosão de emoção eslava pareceu unir polacos e russos e unir também os polacos entre si. Putin abraçou Tusk na clareira do desastre. O Kremlin, sacudindo décadas de mentira e segredo, promoveu transparência exemplar no inquérito e fez exibir pela primeira vez na televisão russa um filme de Wajda sobre o massacre. Em uníssono raro polacos de todas as cores políticas prestaram homenagem ao Presidente e aos seus companheiros de viagem.

Mas depressa o verniz começou a estalar. A insistência do piloto em aterrar em Smolensk, por inconsciência própria ou imperativo presidencial, lembra a cavalaria polaca atacando a sabre os tanques alemães em 1939. Um deputado do partido de Kaczynski disse que os controladores aéreos russos tinham pretendido desviar o avião para prejudicar a comemoração de Katyn. Polacos liberais com Wajde à frente clamaram que faltava ao Presidente estatura nacional que justificasse sepultura na catedral de Cracóvia. Deus continua no recreio.

Texto publicado na edição do Expresso de 17 de Abril de 2010