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O mundo dos outros

Morrer sim mas devagar

José Cutileiro (www.expresso.pt)

Alcácer-Quibir levou à entrega da Coroa portuguesa a Espanha de 1580 a 1640; hoje, meio milénio de domínio mundial escorrega diante dos olhos dos europeus sem parecer querer voltar. No fim da descida, porém, a aterragem no século XXI será tanto mais tolerável quanto mais bem pilotada for. Para isso terá de haver chefes políticos fortes (um fraco rei faz fraca a forte gente), agora postos no poder já não por regras dinásticas mas sim por votos nas urnas. Não haverá desculpa se saírem maus: quem os escolhe é o povo. Na luta sem quartel do mundo globalizado os europeus têm de defender os seus interesses com unhas e dentes e quem os eleitores escolherem para os governar em casa terá de se bater por eles lá fora. Quem não entenda que só uma União Europeia vigorosa, ombro a ombro com os Estados que dela sejam membros, poderá garantir o futuro dos europeus deveria ser excluído à cabeça do rol dos candidatos. Cada chefe nacional europeu intervém na vida de todos os países da União; governações nacionais e governação da União estão entrosadas; se essa malha fosse destricotada e cada país se batesse sozinho contra o mundo, depressa ficaria sem força nem voz. Pátria, como mãe, há só uma mas a defesa dos interesses de cada europeu só poderá ser garantida se for tarefa de todos.

Governação contranatura? Não acho: De Gaulle disse que as nações eram ovos cozidos e com ovos cozidos não se faziam omeletas - mas vão-se fazendo saladas e não se morre de fome. Os europeus levaram dois mil anos em guerras entre si - mostram-no toponímia, monumentos, hinos, memórias e brigas em hibernação (a Portugal coube Olivença) - mas apanharam tal fartão de violência na primeira metade do século XX que os que puderam escolheram viver depois sem ela. O arranque foi bom. Medo de Estaline ajudou-os a não se pegarem uns com os outros e a bomba americana defendeu-os de Estaline sem terem de andar aos tiros. Se continuarem juntos talvez aguentem a velocidade de cruzeiro, embora com a União Soviética no caixote do lixo da História e o primo americano a dizer que não usará a bomba seja preciso adaptar a paz a exigências diferentes.

As guerras económicas e comerciais da globalização têm muito que ver com as guerras militares tradicionais: por exemplo, não há guerras entre bons e maus (salvo em cabeças simplórias ou em manhas para convencer cabeças simplórias), há, sim, guerras de outros, facultativas (poderemos meter-nos nelas ou não) e guerras contra outros, obrigatórias. As ordens de batalha diferem das ensinadas em academias militares mas há requisitos que não mudam: coração quente e cabeça fria são precisos para ganhar. Nessas justas os cidadãos estarão nas mãos dos chefes políticos que escolheram e convém que tenham feito boa escolha porque os troféus podem ser grandes e o castigo devastador. Não há receita milagrosa: os europeus precisam de quem saiba falar por eles e pela Europa - e bater-se pela Europa e por eles sem tréguas e sem quartel.

José Cutileiro

jpc@ias.edu

Texto publicado na edição do Expresso de 24 de Abril de 2010