Siga-nos

Perfil

Expresso

O mundo dos outros

Dois enganos europeus

José Cutileiro (www.expresso.pt)

Um bom e um mau. O bom chama-se alto representante para a Política Externa. Antes do Tratado de Lisboa, Javier Solana afinara o posto durante quase dez anos. Chegara com experiência variada - ministro espanhol dos Negócios Estrangeiros, secretário-geral da NATO; opositor da adesão da Espanha à NATO em 1982, chefe da guerra da NATO contra a Jugoslávia em 1999 - e sem nada na mão e nada na manga convencera os europeus de que estes tinham uma Política Externa e de Segurança Comum. Chamavam-lhe 'senhor PESC' e, embora não houvesse realmente PESC, manteve viva a ilusão de que esta era forte apesar de provas em contrário (incluindo as reacções desavindas à invasão do Iraque em 2003). Hoje vê-se melhor do que quando ele estava em cena que as políticas externas nacionais têm importância muitíssimo maior do que a Política Comum. Além disso a luta por lugares no novo serviço de acção externa põe nações e instituições europeias à bulha. A senhora Alto Representante era uma desconhecida quando foi nomeada pelo Conselho Europeu em Novembro passado e continua a sê-lo hoje. Mau grado tudo isto, o Alto Representante foi (é) um bom engano. Graças ao génio de Solana os estados pareciam fazer coisas juntos - mesmo se montanhas pariam ratos - e como entretanto os países europeus não foram atacados por outros, isto é, ninguém quis ver o jogo, o optimismo durou. Em 2011, já rateados os lugares no serviço de acção externa, o optimismo voltará apesar da crise, da globalização e do grande taumaturgo ter deixado o palco.

O segundo engano chama-se Presidente do Conselho Europeu - e é um mau engano. Muitos pequenos e médios Estados membros eram contra a criação da figura por recearem que os grandes a usassem para promoverem os seus próprios interesses. É o que está a acontecer, com uma facete muito perigosa. Enquanto no tempo de Kohl, Mitterand e Delors, Alemanha e França estavam unidas e queriam que a Europa comunitária prosperasse, no tempo de Merkel, Sarkozy e Barroso, têm discordâncias fundamentais mas querem ambas enfraquecer a Comissão, guardiã do projecto europeu (o que ameaça o futuro de todos e prejudica já os pequenos e médios países). A importância crucial desta guerra escapa muitas vezes a públicos nacionais até porque os defensores mais estridentes do projecto europeu pecam por soberba - acham que só eles são lúcidos e que só eles são virtuosos - fazendo pecar por escândalo governantes que, se não tivessem sido ofendidos assim, estariam com a Comissão.

Paradoxalmente, o poder dentro da Europa está nas capitais nacionais mas o poder da Europa no mundo está no que os europeus puseram em comum em Bruxelas. Ao defender o património de todos, a Comissão terá de lidar melhor com os patriotismos desenfreados que agora a cercam mas isso não chegará se, de Talin a Atenas, políticos com visão não os refrearem. Ao reforçar o directório dos grandes, um presidente permanente do Conselho Europeu irá enfraquecer a Europa do futuro.

jpc@ias.edu

Texto publicado na edição do Expresso de 19 de Junho de 2010