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Expresso

Miguel Sousa Tavares

Maddie não repousa em paz

Quando o caso Maddie começou, eu escrevi que iria ser o maior e o mais decisivo teste feito à capacidade da Polícia Judiciária. Não era essa, aliás, uma opinião difícil de subscrever: desde o início, logo desde o dia primeiro, que se percebeu que o caso iria atingir uma repercussão muito para lá daquilo a que estávamos habituados e uma cobertura mediática que rapidamente extravasaria fronteiras. Exigia-se que, sob a luz de uns holofotes diferentes, a PJ fosse capaz de dar mostras de competência e "savoir-faire", na forma como iria gerir a investigação.

Pois bem. Ao que consta, segunda-feira próxima, o procurador-geral da República vai anunciar que o caso será arquivado, sem nenhuma conclusão e na sequência do relatório da PJ em que a Polícia reconhece que está no mesmo ponto em que estava no dia primeiro, há mais de um ano: sem possibilidade de apresentar nenhuma versão consistente para o desaparecimento de Maddie. Mesmo aceitando que, como diz Pinto Monteiro, sempre houve e haverá casos por resolver no domínio da investigação criminal, uma investigação de um crime que acaba arquivada por falta de pistas é e será sempre uma derrota para a Polícia. Mas, neste caso, a derrota é bem maior, porque proporcional ao investimento feito - em homens, meios, dinheiro, tempo e colaboração de todos - de que não há memória alguma entre nós.

A PJ, dêem-se as voltas que se derem, falhou, pois, o primeiro dos objectivos, que era o de demonstrar a sua competência técnica, desvendando o caso. Admito que não seria fácil, mas falhou e começou a falhar logo desde o princípio, quando não tratou de isolar o local do crime, garantindo a preservação de todos os possíveis indícios. Desde os primeiros dias, fiquei com a impressão de que a PJ não tinha nenhuma estratégia pensada, antes ou durante, para lidar com um caso semelhante: aceitou buscas aleatórias ao sabor do voluntarismo da GNR ou dos populares, demorou uma eternidade a investigar possíveis fugas dos raptores para o estrangeiro por via marítima ou terrestre, aceitou o primeiro intérprete voluntário que se lhe apresentou (Robert Murat, depois transformado em arguido), e só muito mais tarde e com a colaboração da Polícia Científica inglesa, é que começou a preocupar-se com algum trabalho ao velho e eficaz estilo Sherlock Holmes. Mas já era tarde.

O pior, porém, veio depois. Sem conseguir encontrar Maddie ou o seu corpo, sem nenhuma pista sobre possíveis raptores e dados alguns sobre o rapto, a PJ resolveu investir tudo numa tese própria e sem nenhuma sustentação que o permitisse: a de que eram os próprios pais que estavam implicados no desaparecimento de Maddie. Os mesmos polícias que haviam investigado o desaparecimento de Joana, também no Algarve, e que haviam concluído que fora a própria mãe, Leonor Cipriano, que matara a filha e escondera o corpo, avançaram para o caso Maddie com o à-vontade de quem achava que a história se repetira. Isso deveria desde logo ter alertado a direcção nacional da PJ, até por não poder ignorar que nunca foi encontrado o corpo de Joana nem provas irrefutáveis de que a mãe a matara - excepto a 'confissão' da própria, arrancada nas instalações da PJ de Faro, a altas horas da noite, sem advogado nem magistrado presente e em circunstâncias tais que os interrogadores que lhe arrancaram a confissão estão agora a ser julgados por crime de agressões. Não podendo, por razões à vista, sustentar a tese de que os McCann teriam vendido a filha ou organizado o seu rapto; não se atrevendo a sugerir que a teriam, pura e simplesmente, assassinado, sugeriram então uma hipótese mais suave: eles teriam agredido a filha, ambos ou apenas um deles, causando-lhe morte involuntária. Depois, confrontados com o drama, teriam, de comum acordo, feito desaparecer o cadáver de Maddie e declarado-a desaparecida e raptada por estranhos.

A tese era, em si mesma, verdadeiramente inverosímil. Um casal de estrangeiros que nunca viera a Portugal, a passar férias numa pequena aldeia com intenso movimento de pessoas e turistas, teria, durante um jantar com sete amigos num restaurante à vista de todos, arranjado maneira de ir ao quarto onde a filha dormia com os irmãos, retirar o seu corpo, dar-lhe sumiço e retomar o jantar, como se nada fosse. Tudo isto feito durante um período de meia hora a uma hora, sem ninguém reparar e com tamanho sucesso que eles, que nem conheciam o terreno ou as suas imediações, conseguiram iludir as buscas de centenas de populares e GNR, feitas dias fio num raio de cinquenta quilómetros. Era preciso acreditar neste absurdo e, todavia, os investigadores acreditaram e a direcção nacional da PJ, pelos vistos, também.

E seguiu-se aquilo em que a PJ é especialista, sempre que não consegue deslindar um caso mediático: começar a soprar informações e opiniões para a imprensa, sugerindo que sabe muito bem o que se passou, mas que fortes obstáculos (neste caso, diplomáticos), a impedem ainda de o poder dizer. Os homens de mão da PJ na imprensa - jornalistas, ex-polícias e outros 'especialistas' - começaram então a alimentar a campanha suja contra os McCann: que era muito estranho que ela não chorasse, que o casal tinha hábitos sexuais devassos, que os amigos eram todos de desconfiar, que ela se teria queixado de que Maddie era uma criança difícil, etc. e tal. Preparado o terreno, chegou-se então ao golpe final: a constituição dos McCann como arguidos - o que, para o grosso da opinião pública, nacional e internacional, significou apenas que a Polícia portuguesa os tinha como suspeitos da morte e da ocultação do cadáver da filha.

Depois, como também é hábito da casa, começaram a procurar-se provas para sustentar a tese - o caminho inverso de qualquer investigação séria. Os McCann e os amigos passaram a ser interrogados horas a fio, na esperança de que algum deles se 'descaísse' com aquilo que os investigadores queriam ouvir. Como escreveu o 'Times', com grande espanto, a Polícia portuguesa continua agarrada a métodos de investigação que consistem essencialmente na auto-incriminação dos que toma por suspeitos: ou através das escutas telefónicas ou da confissão, espontânea ou não tanto, dos próprios. Como explicou um 'especialista' na RTP, quando os suspeitos não estão disponíveis para continuarem a ser interrogados "ad nauseam", a Polícia fica sem 'meios investigatórios'. E assim, quando os McCann se foram embora para casa, fartos de estarem ali sempre à mão e de ver a polícia unicamente preocupada em conseguir incriminá-los como assassinos da própria filha, em lugar de procurar os seus raptores, a PJ ficou sem saber o que fazer. Os velhos e preguiçosos métodos não tinham resultado e não havia outros que ela conhecesse. Mais de um ano depois, vai-se levantar a infame suspeição sobre um casal que teve o azar de perder a filha em Portugal e sobre um inglês que teve o azar de ser vizinho do aldeamento e ter levantado suspeitas a uma jornalista. Arquive-se.

Não, não se arquive. Tem de haver responsáveis e eles não se podem esconder atrás de livros destinados a prolongar ainda mais a calúnia e a violência sobre inocentes. E tem de haver responsáveis entre os jornalistas e os editores que se prestaram levianamente a aderir e propagandear uma tese que a polícia lhes vendeu e que lhes serviu para vender mais jornais. Não, não se arquive. Já basta de arquivamentos.