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Miguel Sousa Tavares

A lenda da vida eterna e boa

Porque a esquerda não quis refundar o Estado social, vai ser a direita a fazê-lo; porque não quis um debate sem demagogia nem tabus ideológicos sobre a imigração, permitiu a ascensão da extrema-direita xenófoba.

Miguel Sousa Tavares (www.expresso.pt)

Todos os dias somos confrontados com notícias alertando-nos para os perigos de uma qualquer doença - se não é o coração é a diabetes; se não é a diabetes é o fígado; se não é o fígado é o Alzheimer; se não é o Alzheimer são os pulmões ou a hipertensão. É raro o dia, aliás, que não é dia internacional de uma doença - pretexto para reunir um congresso e para a respectiva associação dos clínicos da especialidade entupirem os jornais com press-releases sobre esses congressos e os perigos da doença em causa. Basta ler as notícias dos nossos jornais durante, digamos, uns três meses, para verificarmos uma curiosa estatística: dois milhões de portugueses sofrem disto, três milhões sofrem daquilo, um milhão e meio sofre disto, dois milhões mais milhões sofrem daquilo, etc., e por aí fora. A fazer fé nas notícias, ou a nossa população triplicou subitamente sem darmos por isso ou não há um só português saudável e muitos acumulam duas ou três doenças letais. Já sabemos que estar vivo é, só por si, uma perigosa doença, cujo desfecho há-de ser necessariamente fatal. Mas esse perigo transformou-se num pretexto para uma continuada ofensiva terrorista, com objectivos muito pouco humanitários. Aterrorizar os vivos e mantê-los vivos e aterrorizados até ao limite do absurdo é o mais promissor ramo de negócio do século XXI.

Basta olhar à roda para vermos como se tornou florescente a indústria dos mortos-vivos: lares, clínicas, hotéis-hospitais, serviços de SO inteiramente preenchidos com doentes em fase terminal de vida, a maior parte das vezes já sem conhecimento e nenhuma perspectiva de regresso, mantidos vivos, ligados a máquinas, porque cada dia que passa representa muito lucro para o hospital. Quem tem dinheiro morre assim, com os seus descendentes deserdados ainda em vida do de cujus, e em benefício do negócio privado do prolongamento artificial da vida. Quem não tem dinheiro, vive menos uns meses, morre talvez pior, mas também alimenta, à custa dos "avanços da medicina", as estatísticas da esperança de vida, que sobe seis meses em cada dois anos. A principal diferença é que, em lugar de gastar o seu dinheiro a prolongar a vida de qualquer maneira, gasta o do Estado - o que também é uma forma de deserdar outros.

Viver mais é um direito de todos e seguramente ninguém estará disposto a renunciar a ele. Mesmo quando a sobrevivência é feita já só de sofrimento, físico e emocional, de solidão e de angústia, as pessoas preferem manter-se agarradas à vida porque não conhecem alternativa - não obstante os milénios de doutrinação das nossas igrejas cristãs ocidentais. Talvez tenhamos mudado o paradigma civilizacional e isso requer respostas novas para questões novas. Os governos, a sociedade, têm o direito de fixar à medicina, não um limite de vida, mas um limite de esperança de vida além do qual a sobrevivência não faz sentido, nem socialmente nem individualmente. Deve deixar a cada um o direito (vai entrar uma proposta na AR nesse sentido), de escolher em que momento e em que circunstâncias se renuncia, por antecipação, a tratamentos inúteis. Deve impor como princípio determinante da política de saúde pública a qualidade e não a quantidade da vida. E deve obstar a que o ambiente de terror artificialmente criado conduza a uma prática clínica absurdamente defensiva, utilizada por médicos e reclamada por doentes que, mal sentem uma dor nas costas exigem uma TAC, com isso conduzindo a um insustentável custo da saúde pública.

Porque envelhecemos cada vez mais e fazemos cada vez menos filhos e porque adquirimos o hábito, a que agora chamamos direito, de recorrer aos serviços de saúde de cada vez que achamos que alguma coisa não está bem no nosso organismo (e há sempre alguma coisa que não está 100% bem - por isso é que ainda somos pessoas e não robôs), os sistemas europeus de segurança social e de saúde já só são financiáveis com recurso ao aumento continuado de impostos dos que estão activos ou ao aumento exponencial da imigração. É preciso que uma população nova, activa e saudável sustente financeiramente os custos sociais, sempre crescentes, da que ficou inactiva, vive cada vez mais e, a partir dos 40 anos, se torna habitualmente doente.

É por isso que a Europa precisa de cem milhões de emigrantes, mas não quaisquer uns: têm de estar na flor da idade, têm de estar dispostos a desempenhar tarefas que os europeus não querem desempenhar, e têm de se integrar nas leis, nas regras e nos costumes locais e, sobretudo, começarem logo a descontar para a Segurança Social. Como é fácil de imaginar, isto não é encomenda fácil. Os imigrantes trazem mais crime - não por serem imigrantes e estrangeiros, mas por serem mais pobres e viverem em guetos onde as máfias e os gangues ditam a lei, enquanto os governos fingem não ver. Trazem novos hábitos, novas religiões, novas regras de conduta, muitas das quais ofendem as que aprendemos a respeitar. É fácil e, se calhar, é justo proibir o uso do tchador nos locais públicos, mas não é fácil compatibilizar aquilo que ofende, por exemplo, os direitos das mulheres tal como os defendemos, com aquilo que é, mal ou bem, a preservação da cultura das comunidades imigrantes - que também defendemos. Ou seja: nós precisamos dos emigrantes, mas gostaríamos de os poder escolher por catálogo e mandá-los livremente embora se não gostássemos da amostra. E, porque partimos do princípio de que poderíamos ter sol na eira e chuva no nabal, não nos preparámos para problemas que não eram assim tão difíceis de imaginar.

Se hoje vemos toda a social-democracia europeia a ser afastada do poder na Europa (resta em Portugal, Espanha e Grécia, sintomaticamente os três países com mais problemas de défice estrutural), é porque a esquerda permaneceu agarrada a velhos credos e slogans de populismo fácil e não quis enfrentar duas questões emergentes: a falência financeira do modelo social europeu e o problema colocado pela imigração e questões de segurança a ela geralmente associadas. Porque a esquerda não quis refundar o Estado social, vai ser a direita a fazê-lo; porque não quis um debate sem demagogia nem tabus ideológicos sobre a imigração, permitiu a ascensão da extrema-direita xenófoba - e, em muitos casos, à custa do eleitorado tradicional da esquerda, o que é ainda mais preocupante.

A boa política não tem de seguir a agenda popular passo a passo. Mas também não pode ignorar altivamente os problemas concretos das pessoas, num mundo concreto e não num mundo ideal que se imaginou. O envelhecimento populacional crescente, a insustentabilidade do modelo social tal como existe, a derrapagem sem freio das despesas de saúde, a absorção, socialmente justa, das comunidades emigrantes sem ter de capitular perante aquilo que nos é essencial, são questões tremendas de enfrentar. Mas são as questões sociais determinantes do nosso tempo, no hemisfério que é o nosso. Não há como fugir-lhes.

Texto publicado na edição do Expresso de 25 de setembro de 2010