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Meu querido mês de Agosto

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1 Dêem-me mais Verões destes e eu não morrerei nunca. Dêem-me as manhãs quietas com o som do arrulhar das rolas entre os pinheiros e o som do mar que chega da praia indicando que vai estar um esplendoroso dia de vento sul, o pequeno-almoço tomado devagar sob a sombra da latada de buganvílias, o caminho da manhã até à cidade branca, o mercado do peixe onde este Verão contei 22 espécies de peixes diferentes comprados, cozinhados e comidos e cada um deles com um sabor subtilmente diferente de todos os outros. Dêem-me o vagaroso prazer de que falava Pessoa de abrir um grande livro na cadeira de praia sob o toldo, ler duas páginas e parar, feliz, para ficar apenas a olhar o mar. Dêem-me estes mergulhos em água quente, transparente, polinésica, e estes fins de tarde lentos, quase inconscientes, quando a luz pacificada toma a cor das falésias e os gritos das gaivotas como que reclamam a propriedade da praia e antecipam o momento em que ela voltará a ficar deserta, apenas para os seus voos. Dêem-me os jantares à volta da mesa redonda, os ausentes tornados presentes, os amigos mais chegados que chegam e vão ficando, as crianças que brincam às escondidas nas sombras do luar, as estradas de terra desertas que brilham ao luar com o mar em fundo, a luz dos candeeiros marroquinos recortada contra o branco dos muros, o cheiro do eucalipto queimando na grelha depois dos peixes e, dominado o monstro do vento norte, esta absoluta quietude mediterrânica, fugaz e absurda tentação de eternidade. Se fosse um criativo de publicidade e me pedissem uma ideia para um anúncio de férias de Verão, eu pegaria numa fotografia qualquer tirada ao longo de um qualquer dia deste mês de Agosto e por baixo dela escreveria: “Nada. Absolutamente nada.”

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