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Miguel Monjardino

Prisioneira do Cáucaso

Miguel Monjardino (www.expresso.pt)

Pushkin, o grande poeta russo que viveu entre 1799 e 1837, tinha razão. A Rússia é prisioneira do Cáucaso. Os ataques terroristas em Moscovo e no Daguestão são uma tragédia para a Rússia. Três razões explicam porquê.

Para começar, os ataques terroristas contra civis inocentes em Moscovo ocorrem numa altura em que a Rússia se sente cercada e acossada do ponto de vista político e económico. As opções que Vladimir Putin e os seus aliados nos serviços de segurança interna fizeram nos últimos anos para consolidar o poder político e económico do Kremlin explicam em grande parte este poderoso sentimento de suspeita em relação ao exterior. Os ataques de segunda-feira podem aumentar estes sentimentos e, se isso acontecer, as consequências para a segurança europeia não serão boas.

A segunda razão tem que ver com a economia russa. Vladimir Putin conseguiu duas coisas notáveis nos últimos 11 anos. A primeira foi colocar um travão no rapidíssimo declínio da Rússia. Isto foi bom para Moscovo e para todos nós. Uma Rússia fraca e ingovernável não interessa a ninguém. A segunda foi criar a ilusão de que tinha inventado um novo modelo político e económico para ressuscitar o seu país. No auge da crise financeira no Outono de 2008, as virtudes deste modelo autocrático foram anunciadas ao mundo pelo Kremlin e, como costuma acontecer na actual Europa, causaram coisas como ansiedade e até mesmo inveja.

A dura verdade é que o modelo de Putin é um falhanço. Fiel à tradição política e ideológica dominante na história russa, o poder político e económico foi concentrado no Kremlin e exercido por pessoas que podem saber muito de segurança interna, mas que não têm nem o talento nem a competência para gerir empresas ou actuar em mercados internacionais competitivos. O resultado é uma economia assente em serviços péssimos e uma corrupção verdadeiramente tentacular. A Rússia pertence aos BRIC apenas por uma questão de cortesia.

Dmitri Medvedev, o Presidente russo, passou os últimos meses a chamar a atenção para estes pontos e a defender a liberalização política e económica do modelo construído por Putin. Mas será que isto é possível depois dos ataques terroristas da segunda-feira? É que, se não for, o resultado será trágico para a sociedade russa, uma sociedade que continua pobre apesar do seu talento e recursos naturais.

A terceira razão tem que ver com a tensão que existe entre a prosperidade e a geopolítica na Rússia. A geografia da prosperidade exige uma Rússia muito mais pequena do que a que tem existido nos últimos séculos. A geopolítica exige um país completamente diferente. Exige, por exemplo, que Moscovo domine o Cáucaso. Só assim é que a Rússia se sente menos insegura. Só assim é que o Kremlin sente que pode ser uma grande potência. O problema é que o preço humano, económico e militar associado ao domínio desta fronteira alargada tem sido sempre brutal. Brutal para os que vivem no Cáucaso. Brutal também para a sociedade e para os cofres de Moscovo.

Entre as necessidades da prosperidade e as da geopolítica, os decisores russos optaram sempre pela última. O Cáucaso ocupa um lugar muito especial na cultura e na imaginação russa desde pelo menos o início do século XIX. A Rússia não é a Rússia sem o Cáucaso. Os ataques terroristas desta semana são mais um sangrento episódio na luta por esta região. Os ataques também mostram que as políticas adoptadas por Putin a partir de 2007 para pacificar e controlar os acontecimentos nas repúblicas do Cáucaso do Norte falharam. Dmitri Medvedev tem ideias bastante diferentes sobre o assunto, mas não é claro que venha a ter a margem de manobra política e o tempo necessário para as testar.

Cento e noventa anos depois de Pushkin ter escrito "O Prisioneiro do Cáucaso", o Sul da Rússia continua a gerar horror e fascínio em Moscovo.

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