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Miguel Monjardino

O futuro da Polónia

Miguel Monjardino (www.expresso.pt)

A Polónia outra vez como vítima da história. Foi este o meu primeiro pensamento ao ouvir a notícia de que dezenas de membros da elite política, cultural, económica e militar polaca tinham morrido muito perto de Katyn num desastre de aviação.

Katyn, no oeste da Rússia, é um lugar trágico para a história da Polónia. Foi ali que, em 1940, vinte e dois mil membros da elite polaca - oficiais do exército, advogados, médicos funcionários públicos, professores - foram assassinados por ordem de Estaline. Katyn, esse lugar de vergonha na história europeia, relembra-nos o terrível sofrimento da Polónia às mãos da Alemanha nazi e da Rússia comunista. Setenta anos depois, o Presidente polaco, Lech Kaczynski, e a sua delegação morreram nessas florestas que tanto assombraram a Polónia.

O meu segundo pensamento foi olhar para a Polónia como agente da história. A segunda tragédia de Katyn esconde duas coisas importantes sobre o futuro do país.

A primeira tem que ver com o sistema político. Os polacos sentiram na pele durante décadas o pesadíssimo preço das utopias políticas e de tudo o que sempre as rodeou - a morte, a violência e a pobreza. O regresso à liberdade no final dos anos 80 foi feito com base na experiência e na prudência. Em vez de um novo paraíso político, a Polónia optou pelas regras de uma democracia liberal europeia. Nesta semana tão difícil do ponto de vista político e histórico, estas regras têm sido seguidas de uma forma exemplar.

Bronislaw Komorowski, o líder do Parlamento, assumiu o lugar de Presidente interino. Os cargos dos generais Franciszek Gagor e Tadeusz Busk (Exército), Andrzej Karweta (Marinha), Andrzej Blasik (Força Aérea) foram ocupados pelos seus respectivos substitutos. Piotr Wiesiolek, vice-presidente do Banco Central, assumiu interinamente o lugar de Slawomir Skrzypek. As regras constitucionais estão a funcionar e a democracia polaca está calma e estável.

A segunda tem que ver com a importância da Polónia na política e segurança europeia. A transição polaca de vítima para agente da história será bastante clara amanhã no funeral de Lech e Maria Kaczynski, em Cracóvia. Dos EUA à Rússia, praticamente todos os líderes políticos do mundo euroatlântico estarão presentes. Isto obviamente não acontece por acaso.

Além de ter quase 40 milhões de pessoas, Varsóvia não é a capital de um país qualquer. A Polónia é um actor decisivo na geopolítica da Europa Central e de Leste e no mar Báltico. Além disso, e ao contrário do que acontece com a maioria dos países da Europa atlântica, os seus soldados combatem de uma forma competente na defesa dos interesses polacos.

A política externa de um país com a história e a geografia da Polónia é uma coisa delicada. Viver entre a Alemanha e a Rússia nunca foi fácil. Nos últimos anos, o primeiro-ministro, Donald Tusk, e o ministro dos Negócios Estrangeiros, Radek Sikorski, conseguiram reposicionar e aumentar a margem de manobra diplomática da Polónia com os seus vizinhos mais próximos.

A Rússia, especialmente depois do desastre da semana passada em Katyn, é o caso mais interessante. As divergências de interesses geopolíticos entre Moscovo e Varsóvia são evidentes. A segunda tragédia de Katyn não mudará este estado de coisas. Por outro lado, a maneira como Vladimir Putin e Dmitri Medvedev e os russos em geral reagiram à catástrofe polaca foi simplesmente extraordinária em termos históricos e políticos. Em 1940, Estaline e a NKVD cometeram um crime enorme contra a Polónia em Katyn. Setenta anos depois, Moscovo viu nesse local amaldiçoado pela história uma oportunidade para começar a mudar o tom das suas relações com Varsóvia.

A Polónia que se despede amanhã do seu Presidente não é uma vítima mas sim um agente da história europeia. Por isso mesmo, o futuro do país é promissor.

Número 70 anos depois do assassínio da elite polaca em Katyn, a Polónia voltou a perder dezenas de membros da sua elite no Oeste da Rússia. Esta trágica coincidência esconde uma diferença crucial - a transição de vítima para um dos agentes da actual história europeia. Soluções + A cimeira sobre a segurança nuclear em Washington chamou a atenção para o problema do controlo do plutónio e urânio enriquecido - O aumento dos preços dos bens alimentares na Ásia. A Índia, a China, o Vietname e o Cambodja aumentaram as restrições às exportações

BRIC

Os líderes dos BRIC reuniram-se na quinta e sexta-feira em Brasília. Do ponto de vista político, os BRIC têm um caminho a fazer para se afirmarem como grupo. Na área financeira e comercial as coisas estão mais avançadas. Veja-se o caso do Brasil e da China. Há dez anos as trocas comerciais entre os dois países valiam 1700 milhões de euros. No ano passado valiam 26500 milhões. Em 2009, a China ultrapassou os EUA e passou a ser o principal parceiro comercial do Brasil.

Miguel Monjardino

Texto publicado na edição do Expresso de 17 de Abril de 2010