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Miguel Monjardino

Em guerra com Wall Street

Miguel Monjardino (www.expresso.pt)

Wall Street está debaixo de uma tempestade política perfeita.

Há dois anos, a Goldman Sachs foi a maior apoiante da campanha presidencial de Barack Obama em Wall Street. Os funcionários da empresa financeira contribuíram com um milhão de dólares para a sua campanha. Os democratas receberam quatro milhões e quinhentos mil dólares. Nas últimas duas semanas, a Securities and Exchange Commission processou a Goldman Sachs por fraude e a Casa Branca, o Departamento de Tesouro e os democratas no Congresso entraram em guerra aberta com Wall Street. Os republicanos e os independentes também exigem que Wall Street seja punida pelos abusos cometidos e regulada de uma forma bastante mais dura do que foi nos últimos vinte anos.

A ofensiva política contra Wall Street tem a ver com o ciclo eleitoral e com a necessidade de reformar o sistema financeiro norte-americano. As sondagens do Pew Research Center mostram que a sociedade americana duvida cada vez mais do governo federal e dos seus congressistas. Ao contrário do que acontece na maior parte das sociedades europeias, onde o medo em relação ao presente e futuro é cada vez maior, no lado de lá do Atlântico, a sociedade americana prefere ter um governo federal menos poderoso, mais pequeno e competente do que aquele que existe. A única excepção a esta alergia social ao activismo governamental é Wall Street.

Em Janeiro, a inesperada vitória de Scott Brown na corrida ao lugar de Edward Kennedy no Senado levou a Casa Branca a ver na reforma do sector financeiro e no distanciamento de Wall Street uma maneira de manter o contacto político e emocional com o eleitorado americano. No debate entre Paul A. Volcker e a dupla Timothy Geithner e Lawrence Summers, Barack Obama optou pelas propostas do primeiro. Reformar o sistema financeiro é a melhor maneira de o Presidente gerir o seu capital político depois da difícil vitória no problema da saúde.

Os republicanos e os independentes são a favor da reforma de Wall Street mas não querem ver o poder de Washington excessivamente reforçado nem o dinheiro dos contribuintes usados para salvar instituições ou gestores irresponsáveis. O ruído que tem rodeado o assunto nos últimos dias esconde uma diferença crucial por parte dos republicanos no Congresso em relação à reforma da saúde. Aqui a posição republicana foi de oposição total. Na reforma do sector financeiro, o número de republicanos interessados em mostrar aos seus eleitores resultados concretos é bastante maior.

Wall Street precisa de uma reforma substancial por razões que têm pouco a ver com a emoção e as necessidades políticas de um ano eleitoral. O custo da crise financeira e da recessão nos EUA foi enorme. Basta olhar para os números do desemprego - mais de oito milhões de empregos perdidos desde Dezembro de 2007 - e da explosão da dívida pública para ter uma ideia do preço dos acontecimentos de 2007-2009 na economia e sociedade americano. O preço externo em termos de credibilidade, influência e poder também foi muito elevado.

A grande flexibilidade do país, a demografia, a energia da sua sociedade e capacidade de inovação sugerem que o futuro da América será bem mais brilhante do que normalmente se pensa deste lado do Atlântico. Mas, para que tal aconteça, os riscos que rodeiam o sistema financeiro em Wall Street e as suas consequências para a economia têm de passar a ser olhados de outra maneira. Hank Paulson, secretário do Tesouro da Administração W. Bush, conta no seu livro "On the Brink" que em 26 de Junho de 2007 jantou em Nova Iorque com os principais banqueiros de Wall Street. "Não há alguma coisa que você possa fazer para nos obrigar a não correr todos estes riscos?", perguntou-lhe Chuck Prince, CEO do Citigroup.

O ataque político contra Wall Street tem tudo a ver com a resposta a esta pergunta.

Número 2010 é ano de eleições nos EUA. A fúria contra Wall Street é uma das poucas coisas que unem democratas, independentes e republicanos. Reformar Wall Street implica mudar a avaliação e a gestão do risco Soluções + C.K. Prahalad, professor de Gestão na Universidade do Michigan, morreu. Tinha 69 anos. A sua obra chama a atenção para a "fortuna na base da pirâmide" e é essencial para diminuir a pobreza - Azizullah Yarmal, vice-governador de Kandahar, foi assassinado numa mesquita da cidade

O Eyjaffjalljokull e as Lajes

As cinzas do vulcão Eyjaffjalljokull afectaram as rotas aéreas usadas pelos militares americanos na Europa. Os aviões em trânsito para os EUA ou para o Iraque e Afeganistão foram desviados de Ramstein, na Alemanha, para as bases de Rota e Morón, em Espanha. E as Lajes? O estudo "Global En Route Strategy" do Air Mobility Command mostra que nas três rotas disponíveis para atravessar o Atlântico, a base nos Açores desempenha um lugar secundário na logística dos EUA. O Atlântico está a mudar a Norte e também a Sul.

Miguel Monjardino miguelmonjardino@gmail.com

Texto publicado na edição do Expresso de 24 de Abril de 2010