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Miguel Monjardino

Administração Trump?

Premonitoriamente Miguel Monjardino escreveu um artigo de opinião em setembro que alertava para a possibilidade de Donald Trump vencer a corrida à Casa Branca

Donald Trump pode ganhar as eleições presidenciais a 8 de novembro. Chegou a altura de escrever isto. A estrada política para a Casa Branca é muito estreita mas as últimas semanas mostraram que a sua vitória deixou de ser impensável.

A um mês e meio das eleições, praticamente todas as sondagens apontam para um resultado final muito disputado, especialmente no caso de Gary Johnson do Partido Libertário e Jill Stein dos Verdes continuarem na corrida. Trump está à frente em estados cruciais como Ohio ou Florida.

À entrada da reta final da campanha eleitoral, a onda política e emocional parece favorecer o candidato apoiado por uma nova coligação de republicanos.

Vista do lado de cá do Atlântico, este estado de coisas é chocante. A taxa de desemprego nos EUA está nos 4,9 por cento. Nos últimos seis anos, foram criados mais de 14 milhões de empregos. A economia recuperou da grande recessão de 2008-2009.

Washington pode não ser uma capital omnipotente como foi no final dos anos 90 mas, mesmo assim, continua a ser respeitada e indispensável a nível internacional. As suas universidades e empresas são as melhores do mundo.

Nos últimos anos, os EUA transformaram-se numa potência energética, um acontecimento que terá enormes consequências daqui para a frente.

Como é que se explica então o enorme sucesso da campanha de insurreição política liderada por Donald Trump desde o ano passado? Quais são as suas fontes a nível interno e externo? Começando pelo primeiro ponto, a taxa de desemprego é um número enganador. Como Nicholas Eberstadt chamou a atenção no início do mês no "Wall Street Journal", cerca de 7 milhões de homens entre os 24-54 anos deixaram de procurar emprego nos EUA. A tecnologia, os baixos níveis de crescimento económico e a evolução da sociedade norte-americana ajudam a explicar estes números.

Trump tem vindo a convencer muitos americanos que coisas como o discurso politicamente correto, a viragem dos democratas à esquerda, a imigração ilegal, o comércio livre, e a estratégia adotada por democratas e republicanos desde o final da Guerra Fria em 1989 minaram a vitalidade da sociedade e da economia do país.

Segundo a CNN, o candidato dos republicanos é mais credível do que Clinton a nível económico (56%-41%). Estes números podem mudar até novembro mas, dão-nos uma ideia do desapontamento ou da ansiedade de metade do eleitorado norte-americano.

Passando ao segundo ponto, Trump acha que a ordem liberal internacional construída por Washington já não serve os interesses dos EUA. Uma administração Trump seria tentada a renegociar os principais tratados comerciais internacionais e prestaria muito menos atenção à segurança e defesa da Europa e do leste da Ásia. A única exceção seria o Médio Oriente onde Trump tem ideias muito diferentes das de Obama em relação às insurreições da Al-Qaeda e do Daesh e às ambições estratégicas de Teerão.

Portugal, tal como a maior parte dos países europeus atlânticos, venera os EUA de Barack Obama. A derrota de Hillary Clinton é simplesmente inconcebível para nós. Trump, todavia, pode ganhar.

Texto publicado na edição do Expresso de 24 de setembro de 2016