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Manuel Ennes Ferreira

Solidariedades lusófonas

O mundo económico em português começa a ser um emaranhado interessante.

Manuel Ennes Ferreira (www.expresso.pt)

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, como dizia Camões. Esta 'sentença' assenta que nem uma luva nas relações entre os países lusófonos. Historicamente foi o que foi. Portugal era o centro. O Brasil foi o primeiro a dizer adeus.

De forma impressiva nos anos mais recentes está a alcançar um estatuto e respeito invejáveis. As ex-colónias de África e Timor, independentes muito mais tarde e bastante diferenciadas entre si, vão fazendo o seu caminho sem que tenham virado as costas, e não era necessário, a Portugal. Mas o mundo evoluiu. Angola será o caso mais paradigmático.

Os seus interesses económicos e políticos junto dos países parceiros lusófonos são evidentes. Por exemplo, no dia 15 de novembro foi encerrado o leilão de blocos petrolíferos na zona económica exclusiva de São Tomé e Príncipe. Por muitas vezes se ouviu falar do interesse da Galp, da Petrobras ou da Sonangol - o mundo lusófono no seu esplendor - em ali estarem presentes. Mas concorreram seis empresas e nenhuma das acima referidas. Em contrapartida uma empresa privada angolana, a Gema-SA. Uma das interpretações é que não é seguro que haja 'potencialidade petrolífera'.

Se acaso se descobrir algo de promissor, então aquelas empresas secundárias transmitirão o negócio. Mas anote-se a presença angolana. Na semana passada o Conselho de Ministros angolano aprovou um apoio financeiro à Guiné-Bissau no valor de mais de 20 milhões de dólares. Ajudar a cobrir o défice do Orçamento do Estado é o objetivo, juntando-se o apoio ao défice da balança de pagamentos, a assistência técnica ao sector militar e de segurança e aos empreendimentos privados. Esta ajuda vem na sequência de um pedido de 127 milhões de dólares que havia sido formulado no início de novembro.

Nessa altura também foi solicitado pela Guiné-Bissau um tratamento especial à sua dívida externa para com Angola no valor de 38 milhões de dólares. E Angola mostra-se interessada em vir a explorar bauxite e a construir um porto de águas profundas em Buba.

E com Portugal sabe-se como é, não tendo ido ainda mais longe porque a queda do preço do petróleo e a diminuição das disponibilidades em divisas caíram acentuadamente. Mas não tardará, com ou sem dívida em atraso para com Portugal. A passagem, diz-se, da fasquia dos 10% no BCP por parte da Sonangol e a compra de mais umas ações do BPI na semana passada por parte da Santoro podem indiciar que uma segunda leva se aproxima. E no que respeita à banca portuguesa, as exigências de Basileia III vão obrigar as instituições bancárias a reforçar o seu capital.

De onde vem? Paralelamente, o Estado português continua a braços com o seu financiamento. Assim, e de repente, aparece quem menos se esperaria há uns anos: Timor-Leste! O seu Fundo de Petróleo com mais de 6 mil milhões de dólares pode dar uma ajuda. Em suma, o mundo já não é o que era? Não. Camões explica tudo naquele seu poema: todo o mundo é composto de mudança, tomando sempre novas qualidades.

 

Manuel Ennes Ferreira, professor do ISEG

Texto publicado no caderno de economia do Expresso de 4 de dezembro de 2010