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Manuel Ennes Ferreira

Angola: a vez da CPLP?

Manuel Ennes Ferreira (www.expresso.pt) *

Rei morto, rei posto? Dentro de pouco tempo chega ao fim a presidência portuguesa da CPLP que se iniciou em Julho de 2008 e terminará no próximo mês de Julho. Foram dois anos a tentar levar a água ao moinho da promoção e difusão da língua portuguesa. Balanço? Espera-se por ele... Mas, acabado o reinado, o lugar vai ser cedido a Angola. Lá para meados de Julho ocorrerá a Conferência de chefes de Estado e de Governo que terá ter lugar em Luanda. País anfitrião, novo patrão, Angola tornar-se-á o presidente da organização no próximo biénio (Julho 2010-Julho 2012). É desta? Isto é, será que finalmente assistiremos a um empenhamento activo de Angola naquela instituição? Quando a CPLP foi constituída em 1996, o seu primeiro secretário-executivo, Marcolino Moco, apresentava umas credenciais de peso: ex-primeiro-ministro e ex-secretário-geral do MPLA ou vice-versa. No entanto, tratou-se mais de um posto de exílio do que de outra coisa, um erro de casting, certamente sem culpa do próprio, mas denotava logo que não era propriamente uma participação activa que se poderia esperar de Angola. E assim foi o tempo correndo que as suas prioridades eram outras. Mas o fim da guerra civil em 2002 e o boom económico associado ao petróleo vieram alterar alguns dados, políticos e geoestratégicos. Angola percebeu que a sua vontade de afirmação global passava por usar os fóruns onde tivesse algum protagonismo. E se possível, liderança. Ora a CPLP, mais sob a batuta de Portugal, com o Brasil arrastando os pés atrás e o conjunto restante da África lusófona acompanhando, viu agora 'emergir' um novo parceiro: Angola. A vontade de poder ser uma espécie de porta-voz dos interesses dos seus 'irmãos' continentais encontra nestes um respaldo. Olham para Angola como uma espécie possível de árvore das patacas. O reforço das relações económicas com Angola é evidente, seja por investimentos em diversas áreas seja por concessão de alguns auxílios e empréstimos financeiros. Há crise em São Tomé e Príncipe ou Guiné-Bissau? Lá vai Angola à frente deitar água na fervura. Por outro lado, querendo ser tratada ao nível de Portugal e Brasil, esta presidência pode mostrar se é mesmo isso que quer. Ver-se-á se há agenda, que objectivo(s) principal apresenta e até que ponto se empenhará nele. Há uns tempos escrevi aqui sobre uma ideia peregrina que havia sido lançada para o ar sobre a constituição de um Fundo de Desenvolvimento, assim que a modos de um Banco de Desenvolvimento da CPLP. Cheirava-me, e escrevi, que na eventualidade de se seguir o princípio de que não há fumo sem fogo, um país estaria por trás. Referia-me obviamente a Angola. Veremos se assim é, mas faz todo o sentido que possa ser esta uma das marcas angolanas. Quando os países da CPLP estão como estão, particularmente os africanos, que melhor senão avançar com esse objectivo? Quem, melhor do que Angola, está em condições de contribuir financeiramente para tal desiderato? À cabeça da locomotiva a marcar o ritmo. Será? Rei morto, rei posto... finalmente é a hora da CPLP aos olhos de Angola?

Manuel Ennes Ferreira

Professor do ISEG

mfereira@iseg.utl.pt

Texto publicado na edição do Expresso de 24 de Abril de 2010