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Manuel Ennes Ferreira

A triste sina da Guiné-Bissau

Manuel Ennes Ferreira* (www.expresso.pt)

Uma vez mais, e pelas piores razões, a Guiné-Bissau esteve por momentos nos telejornais e na imprensa escrita. De Estado frágil a narcoestado, os epítetos multiplicam-se. Não é apenas o país que é posto em causa. É, por arrasto, África. E com grande injustiça, diga-se, para todos aqueles que ali tentam dar o seu melhor no campo político, social ou económico. Não é fácil entender o que realmente alimenta a instabilidade de forma cíclica. Meras questões étnicas? Regionais? Ajustes do passado? Ou será tudo uma questão meramente venal, os interesses da droga e a ideia de que o país produzirá petróleo e outras matérias-primas muito interessantes (bauxite)? Não sei, mas do que estou certo é de que não é a comunidade internacional, sejam as Nações Unidas, a União Africana, a CEDEAO, Portugal, Angola ou a CPLP que poderão impor uma solução. Questões como estas radicam fundamentalmente em motivações internas, sejam elas quais forem. E isto é motivo para voltar as costas à Guiné-Bissau? Longe disso. O que fazer e como, não é fácil. A 5 de Março, o Conselho de Segurança da ONU saudou os esforços do Governo na procura da estabilização e reforma. Nem passou um mês e o mesmo órgão via-se obrigado a dizer que as partes deveriam "resolver as suas diferenças através do diálogo". Na verdade ninguém se pode substituir aos guineenses. Portugal tem feito, conjuntamente com a comunidade internacional, o que pode... e a mais não é obrigado. E não tem sido tão pouco assim. Muitos dirão que é tempo perdido. Perdido não só porque 'aquilo' não tem solução, o que é sempre arrepiante de ouvir, mas porque a Guiné-Bissau não pesa nas relações económicas de Portugal. Na realidade, as exportações portuguesas que eram de 22 milhões de euros em 1995, dez anos depois mantinham-se nos 24 milhões e no ano passado subiram para uns meros 33 milhões de euros, ou seja, 0,1% das vendas totais portuguesas ao exterior. Do lado das importações pior: apenas 5 milhões de euros em 1995, 1 milhão em 2005 e 1,3 milhões de euros em 2009! No cômputo dos PALOP, vale pouco mais de 1%. E no que respeita ao investimento português, o panorama ainda é mais esclarecedor: em 2006 investiram-se 200 mil euros e em 2009 apenas 122 mil. A dívida para com Portugal está em atraso pelo menos desde 2003, sendo que em 2008 valia 125 milhões de euros com 48 milhões atrasados. É o único dos países africanos lusófonos onde, em Junho de 2009, não havia presença de um banco português. Nesta relação bilateral, a única coisa que corre de feição à Guiné-Bissau são os envios de remessas dos seus emigrantes em terra lusa (mais de 6 milhões de euros em 2008, à frente de São Tomé e Príncipe e Moçambique). Mas é esta a óptica que deve guiar a posição portuguesa naquele país? De forma alguma. O país e a sua população merecem respeito e dignidade. Mas a solução encontra-se lá dentro e a impotência da comunidade internacional reflecte apenas isso mesmo, o que não é pouco e é trágico.

*Professor do ISEG

Texto publicado na edição do Expresso de 10 de Abril de 2010