Siga-nos

Perfil

Expresso

Luís Fernando Veríssimo

Rimas

Luís Fernando Veríssimo (www.expresso.pt)

Todo o mundo sabia que a mulher do Ferreira o enganava, mas o Ferreira continuava lhe fazendo poemas. Onze anos de casados e ele ainda cantava a mulher em versos. Versos ruins, 'amor' rimando com 'flor' e 'paixão' com 'coração', mas versos. Que lia para a roda do chope antes de entregar à mulher, às vezes acompanhados de uma rosa. A infiel se chamava Rosa.

"Tua beleza é um dom divino

Ao qual faço este hino"

Ou:

"És formosa, sedosa, cheirosa,

Garbosa, mimosa, vistosa,

Voluptuosa, maravilhosa...

Enfim, és Rosa!"

Depois de ler um dos seus versos, o Ferreira olhava em volta da mesa e perguntava:

- Hem? Hem?

Os amigos se entreolhavam e sorriam.

- Boa, Ferreirão.

Gostavam do Ferreira. Era uma boa alma. O que não impediu que lhe dessem um apelido, sem ele saber: Corno Lírico.

Ninguém sabia como a Rosa recebia os poemas que o Ferreira lhe entregava, às vezes com uma rosa.

Beijava o Ferreira e dizia coisas como "Você é mesmo um doce", ou jogava o poema e a rosa no lixo, já que não podia jogar o Ferreira? O amante actual da Rosa, sabiam todos menos o Ferreira, era um fiscal da Receita chamado Rubival. Os dois se encontravam todos os fins de tarde. Um dia, a Rosa se atrasou no encontro com o Rubival e quando chegou em casa o Ferreira já estava lá, com um novo poema na mão.

- Onde você estava?

- Na pedicure. Tive de esperar. Toda a cidade resolveu fazer os pés na mesma hora.

O novo poema do Ferreira para a mulher terminava assim:

"Rosa linda, Rosa rainha,

Rosa perfeita, Rosa minha."

Eles já estavam na cama, luz apagada, quando o Ferreira perguntou:

- Pedicure?

- É.

Silêncio. Ela:

- Porquê?

Ele:

- Por nada.

- Está duvidando de mim?

- Claro que não.

- Quer ver o meu pé?

- Que é isso?

Os amigos estranharam. O Corno Lírico estava distraído. Quieto. Olhar perdido. Não era o mesmo Ferreirão de sempre. Os outros já estavam no terceiro chope e ele ainda não tocara no seu primeiro.

- E aí, Ferreirão?

- O quê?

- Pensando na vida?

- Não, não.

- Tudo bem em casa?

- Bem, bem.

E o Ferreira voltou ao seu silêncio. Dali a pouco, perguntou para a roda:

- Qual é uma rima pra 'desgosto'?

Todos respiraram, aliviados. Então era naquilo que o Ferreira pensava, num poema. E todo o mundo deu palpite. Agosto. Rosto. Mosto. Encosto. Recosto. Imposto. Entreposto...

Texto publicado na edição do Actual de 2 de Abril de 2010