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Luís Fernando Veríssimo

Infláveis

Luís Fernando Veríssimo (www.expresso.pt)

Como se compra uma mulher inflável? Foi a pergunta que me fiz um dia, e não soube me responder.

Você entrava num sex shop e pedia para ver o que eles tinham?

(Você: "Mulher inflável?" Balconista: "No fundo, entre os arreios e as bolinhas japonesas".)

Não, pensei. Sex shops não deviam vender mulheres infláveis, a não ser as mais bem estocadas. Talvez se comprasse pelo correio. Pela Internet, isso. Procurei mulher inflável no Google. E encontrei! Mulheres feitas de vinil, da cor que se quisesse, em tamanho natural, com algo chamado de Cyber Skin nos orifícios. Vinham numa caixa.

Como seria a caixa? Parecida com uma embalagem de pizza, com a mulher dobrada dentro? Viria uma bomba de ar junto ou você mesmo teria que assoprar para enchê-la, no primeiro acto de intimidade entre os dois? Você lhe dando vida com o seu sopro, como o Deus da criação. Depois passando a mão pela sua pele de vinil, testando o Cyber Skin com o dedo, tomando posse. Elas já viriam da fábrica com nome - Suzy, Carol, Natasha - ou caberia a você também baptizar a recém-nascida, ou recém-inflada? Cloé, pensei. A minha se chamaria Cloé. Ou talvez Pleshette.

Decidi que, antes de seguir adiante, deveria consultar alguém que tivesse experiência com mulher inflável. Me indicaram o Fred (o nome dele, claro, não é este), que já teve várias.

- A vantagem da mulher inflável, Aloísio (meu nome, claro, não é este) - disse ele - é justamente a variedade. Quando você se cansa de uma, joga fora e compra outra. Ou vende a velha e compra uma nova.

- Vende a velha?

- Há um grande mercado para mulher inflável de segunda mão, ou recauchutada.

Eu estava entrando num mundo paralelo de cuja existência nem desconfiava. O próprio Fred me contou que havia uma comunidade de homens com mulheres infláveis que se reuniam frequentemente, inclusive para troca de casais. Só não faziam muito sexo em grupo porque, com o calor da acção, havia o risco de algumas mulheres esvaziarem e murcharem, o que estragava o clima.

Nem todos compravam mulheres infláveis com a mesma intenção, ainda segundo o Fred. O Tuta, por exemplo (o nome dele, claro, não é este), especificara que queria uma inflável com a cara da sua ex-mulher e com apenas um orifício: a boca.

Para o sexo oral, que a mulher dele se negava a fazer?

- Não, para tapar com uma rolha. Ele não toca na sua mulher inflável. Bota ela sentada ao seu lado durante as refeições, no sofá quando vê televisão, na cama... De vez em quando pergunta "Você disse alguma coisa, querida?" e depois dá uma gargalhada.

Comprei uma mulher inflável. Confesso. Pedi uma morena com a cara aproximada da Catherine Zeta-Jones, se tivessem, e não pretendo compartilhá-la com ninguém. Tenho-a levado a motéis, onde o pessoal se surpreende ao me ver chegar sozinho, com um caixa de pizza de baixo de um braço e uma bomba de encher pneu de bicicleta do outro. Mas, é claro, não sou eu que estou escrevendo isto.

Texto publicado na edição do Actual de 24 de Abril de 2010