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José Manuel dos Santos

O alfaiate

José Manuel dos Santos (www.expresso.pt)

A rua é no centro de Lisboa, mas tem um sossego de arredores. Um amigo meu, que descobre casas velhas para as tornar antigas, encontrou aí um andar que o encantou. Essa compra trouxe-lhe mais do que uma casa - deu-lhe uma história.

Aquele edifício sólido e solene modificou-se, ao longo dos séculos, conhecendo várias feições, estruturas e usos. Foi convento, palácio, bordel, loja, repartição pública. Agora, é um prédio de dois andares vastos e, entre eles, uma sobreloja com um pé-direito de pouco mais de um metro. Até há pouco tempo, essa sobreloja foi usada como despensa de um famoso restaurante que, no prédio ao lado, serve comida farta e forte. Nesse armazém de tectos baixos, foram, durante anos, guardados os presuntos, os enchidos e os queijos que abrem o apetite aos comensais, entre os quais se contam muitas pessoas que, todos os dias, têm o nome impresso nas primeiras páginas dos jornais, ao lado de fotografias onde aparecem, saciados e ferozes, a denunciar os males da Pátria e a enunciar as maneiras de lhes fazer frente.

Quando iam ao armazém, os empregados do restaurante praticavam uma forçada ginástica, obrigados a andar de gatas em busca dos chouriços, dos paios, das morcelas e das farinheiras que tornam irresistível e famoso o cozido à portuguesa. Mas houve um dia em que a ASAE inspeccionou o restaurante e as suas dependências, concluindo que aquele lugar abafado e esconso não tinha condições de temperatura e humidade para armazenar alimentos tão sensíveis e gostosos. Diz quem sabe que, dessa vez, a ASAE não se enganou na decisão. Em consequência dela, a sobreloja ficou quase vazia, restando-lhe apenas, para marcar o terreno e lembrar a quem pertence, algumas caixas de cartão, contendo pratos de loiça e copos de vidro, que ali esperam, na obscuridade e no silêncio, o momento de substituírem outros que se vão partindo, enquanto aqueles que neles comem e por eles bebem discutem, aguerridos, o futebol e os seus jogos.

É claro que o dono do restaurante, astuto e com 'jeito para o negócio', já percebeu que o meu amigo quer comprar a sobreloja para, ligando o andar de cima ao andar do rés-do-chão, que também compraria, usar o prédio inteiro para fazer um magnífico duplex. Por isso, pede-lhe uma fortuna por aquilo que já não serve para nada e vale um quinto dessa quantia.

Ainda sem saber como vai convencer o loquaz e ávido proprietário a abrandar a sua ganância, mostrando-se razoável e justo, o meu amigo, que gosta de enigmas e de os esclarecer, resolveu investigar a história daquela sobreloja e os usos que teve antes de guardar queijos e presuntos. Imaginou hipóteses, seguiu pistas, interrogou pessoas, até chegar àquelas que ainda guardam memória dos anos em que aquele tugúrio baixo e comprido era habitado e tinha vida. E ficou espantado com o que descobriu.

A sobreloja foi, durante uma vida, habitada por um anão tão pequeno que tornava grande o pé-direito da casa. Ali, andava ele, para trás e para a frente, contente por ter encontrado uma casa à sua medida. Popular entre os vizinhos, era alegre, esperto e engenhoso. Dizia frases cheias de graça e arranjava soluções para os problemas - sobretudo para os problemas que a sua pequenez lhe causava. É que, além de morar na sobreloja, o anão trabalhava lá. Era alfaiate. Ali, riscava e cortava; ali, cosia e passava a ferro. Como era artista na arte de dar aos outros a elegância que lhe pediam, tinha muitos e fiéis fregueses. Aquela alfaiataria, naquela casa de bonecas, era laboriosa e produtiva. E o anão, que passava os dias a tirar medidas, não tinha mãos a medir.

Ao princípio, pôs-se apenas um pequeno problema. Onde seriam atendidos os clientes que lá iam e não conseguiam entrar numa casa com um tecto tão baixo? Em que lugar poderiam fazer as provas dos seus fatos? O anão pensou e encontrou uma solução. Aquele pequeno-grande mestre alfaiate, que teria fascinado os Irmãos Grimm, Federico Fellini e J.R.R. Tolkien, mandou pôr na parede da escada um espelho muito maior do que ele (ainda hoje lá estão as marcas!) e passou a fazer as provas aos clientes no patamar. Ainda há gente que se lembra de o ver a subir e a descer os degraus do lance de cima, usando-os como se fossem de um escadote que o fizesse chegar aos ombros do cliente. Ainda existe quem o recorde a pôr e a tirar alfinetes nas lapelas e nas bainhas, a abrir e a fechar a tesoura para aperfeiçoar um pormenor ou acertar uma linha. Fazia isto com a precisão mágica das suas mãos minúsculas, enquanto ria e cantarolava.

O meu amigo ouviu esta história e todas as histórias fantásticas da sua infância vieram ter com ele. Agora, se chegar a acordo com o restaurante dos presuntos e dos queijos, vai ter pena de destruir aquela sobreloja cheia de histórias. E, quando viver naquele prédio e subir aquelas escadas, vai ver, no seu espelho interior, um anão a dar aos corpos dos gigantes os trajes com que eles conquistam o mundo.

Texto publicado na edição do Actual de 17 de Abril de 2010