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José Manuel dos Santos

Desconfiança

José Manuel dos Santos (www.expresso.pt)

Faz vento e chove. Sem gabardina, olha o desabar do céu e pensa que a tempestade se armou contra ele, apenas para o apanhar desprevenido. É assim e não há nada a fazer. O rosto que mais perto tem do seu é sempre o da desconfiança. E quando se cansa dele, troca-o por uma cara ainda mais dura: a da suspeita. Não acredita em nada, nem em ninguém. Suspeita de tudo e de todos. Duvida da família e dos colegas, dos amigos e dos inimigos. Desconfia de si mesmo, dizendo-se: "Hoje, acordaste muito inocente. Se não tens cuidado, és comido. Olha que, depois, é impossível recuperares o que perdeste..."

Entre ele e o mundo, há sempre uma porta fechada à chave. Na rua, pensa no que de mal lhe pode acontecer em casa. Em casa, pensa no que de pior lhe pode acontecer na rua. Quando sai, previne-se como se fosse para a guerra. Haja quem passe perto de si que, num gesto automático, ele leva logo a mão à carteira. Se alguém fala com alguém sobre alguém, pensa que é dele que estão a falar. Se o olham por acaso, vê logo nesse olhar uma intenção hostil e um propósito inconfessável. Os que caminham atrás dele estão a persegui-lo. Os que vão à sua frente fogem-lhe.

Não crê na sinceridade, na transparência, na boa-fé. Não acredita em coincidências, acasos ou casualidades. Observa o mundo com a minuciosa e lenta lupa da suspeita. A vida, para ele, é uma conspiração permanente e universal. Todos os actos, todas as omissões, todas as palavras, todos os silêncios estão presos por fios invisíveis numa teia ininterrupta, são ligados em cadeias infinitas de causas que são efeitos que são causas. Tudo é decidido noutro lado e tudo é controlado por cima. A política, então, é a conspiração perfeita. Um dia, leu "O Príncipe", de Maquiavel, e esse velho livro, que tem atravessado gerações como um símbolo de prevenção, perspicácia e perversidade, pareceu-lhe um tratado de candura, confiança e ingenuidade. Quando leu os comentários que Napoleão Bonaparte lhe acrescentou, achou-os sábios, mas, ainda assim, tímidos e insuficientes.

Desconfia dos usos do dinheiro, como se desconfia de uma arma manejada por alguém que, em qualquer momento, a pode virar contra nós. Imagina burlas, roubos, fraudes, falsificações, logros, ardis. Toda a gente engana toda a gente. As contas estão, por princípio, erradas. Confere-as e volta a conferi-las: primeiro, mentalmente; depois, com uma máquina de calcular. Mesmo que estejam certas, em mil casos, encontrar um erro, uma vez, dá razão a todas as suas suspeitas.

O dinheiro que tem no banco, considera-o sempre sob ameaça. Usa todos os meios possíveis de controlo: multibanco, Internet, correio, telefone, presença. O seu gestor de conta, que contacta e visita incessantemente, já não o pode ver nem ouvir. Por muito que lhe garanta a segurança do dinheiro, ele inventa cenários inverosímeis, prevê perigos e emergências, conjectura ameaças e catástrofes. Desde que começou a crise, a palavra 'bancarrota' não sai da sua boca crispada. Vê nas Finanças e nas suas repartições tentaculares um polvo a segregar tinta negra, para confundir, perseguir, capturar, asfixiar. Sempre que daí recebe uma carta, abre-a com uma raiva que se aproxima da apoplexia e lê-a prestes a transformar-se num homicida.

Nos restaurantes, desconfia que o peixe e o marisco pesados na sua frente serão substituídos, antes de cozinhados, por outros mais pequenos. Por isso, arranja mecanismos e instrumentos de vigilância, que vão desde a fita métrica de bolso ao empregado-espião.

O único dinheiro que gasta com exaltado e fiel prazer é aquele que se destina a comprar, subornar, presentear, corromper pessoas que dêem razões à sua desconfiança, trazendo-lhe tudo aquilo que a pode justificar e avolumar. Paga a espiões, detectives, informadores, emissários, alcoviteiras.

Não pode ver duas pessoas juntas sem imaginar que estão ali para tramar uma terceira. Não concebe que se encontrem apenas pelo gosto de estar uma com a outra. No amor, acha que toda a gente é infiel a toda a gente e procura aproveitar a seu favor essa infidelidade. Quando é bem sucedido, confirma a sua tese geral. Se não consegue os seus intentos, acha que a pessoa que se lhe recusa é, além de infiel, hipócrita, má e perversa. Apenas por isso o rejeita.

Quando ouve um boato, nunca examina a sua verosimilhança ou credibilidade. Analisa o seu impulso malévolo e o seu poder destrutivo. Só lhe dá crédito, e só o propaga, se for suficientemente mau, certeiro e eficaz.

Pensa que, se Deus criou um universo tão complexo, imprevisível, cruel e traiçoeiro, foi porque suspeitava de si - mesmo, dando à sua obra a assinatura dessa suspeita, Ela está em todo o lado como um ADN.

Ouvimos este homem e a sua paranóia torna-nos paranóicos. Mas há dias em que acordamos e tudo parece acontecer para lhe dar razão. E, como ele, pensamos que, no pecado original, não houve desobediência, mas desconfiança. Fazia vento e chovia. Adão e Eva tinham frio, olharam um para o outro e desconfiaram que estavam nus...

jmdossantos@netcabo.pt 

colunista regular do "Actual"

Texto publicado na edição do Actual de 24 de Abril de 2010