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José Manuel dos Santos

Cansaço

José Manuel dos Santos* (www.expresso.pt)

Chegou a casa já passava das nove da noite. O dia no emprego tinha sido uma tortura. Vinha cansado, moído, farto. Pensou: "Estou todo roto. Já não tenho idade para isto. Nem paciência!" Mas este pensamento de revolta, em vez de lhe dar alento, como era costume, abateu-o ainda mais. Sentou-se no sofá, sem vontade de ir ver o que a empregada lhe tinha deixado para jantar. Decidiu: "Vou comer só fruta. Não tenho fome e preciso de fazer dieta." Ligou a televisão, tentando fixar a atenção num debate sobre o futuro do país. O que ouviu irritou-o. Mudou de canal. Quando olhava umas imagens de desporto, ainda antes de perceber o que eram, adormeceu. Acordou uma hora depois, com uma dor no pescoço e o corpo tão amarrotado como a roupa. Ergueu-se, espreguiçou-se, dirigiu-se à cozinha. Agarrou numa maçã e, mesmo de pé, comeu-a. Não lhe apetecia mais nada, mas já sabia que, a meio da noite, se iria levantar como um sonâmbulo e atirar-se ao chocolate. A sua vida actual cansa-o, distorce-o, exaspera-o. Mas não consegue sair dela: está cercado pelo hábito do cansaço, pelo comodismo da inércia, pelo vício da tristeza.

Na empresa, faz o que pode. Mas perdeu o entusiasmo. Quanto mais lhe exigem, mais se sente desmotivado, lento, esgotado. Fala-se na crise de todos e ele pensa na crise dele: "Estou na famosa crise da meia-idade. Tanto ouvi falar dela, mas não pensei que fosse tão desinteressante..." Quando tem de falar para aqueles que dirige, em reuniões que os Recursos Humanos estão sempre a inventar, ouve a sua voz como se fosse a de outro. Sabe que repete lugares-comuns. Sabe que não põe convicção, nem vigor, nem verdade no que diz. Tem vergonha daquele vocabulário vazio. E fica admirado que, no fim, o venham felicitar pelo que disse. Acha que isso é sinal da vacuidade, da decadência, da esterilização das relações humanas, profissionais.

Casou duas vezes. Cada casamento durou sete anos. Entre os dois houve um intervalo de sete anos. Agora, está sozinho há cinco. O primeiro casamento acabou por causa do trabalho dela. Médica, corria do hospital para o consultório. Regressava a casa às dez, às onze, à meia-noite. Apesar das suas ideias sobre igualdade de género, a desculpa que desculpava os atrasos dele não desculpava os atrasos dela. Discutiam. Passaram três anos a discutir, num inferno onde ardiam gritos, recriminações, insultos. Separaram-se e ficaram amigos como nunca tinham sido. Sete anos depois, casou com uma professora universitária, amiga de uma colega. Esse casamento acabou por exaustão. Nada acontecia de interessante. Passavam os fins-de-semana em casa, sem vontade de sair juntos. Durante aquelas quarenta e oito horas, trocavam cinco frases banais. Um domingo, ela, de repente, disse-lhe: "Não sei o que estamos aqui os dois a fazer!" Na segunda-feira, ele alugou um apartamento e foi para lá viver. Telefonam-se raramente e o que dizem tem a mesma escassez, a mesma indiferença, o mesmo tédio do que diziam quando eram casados.

Não tiveram filhos. Do primeiro casamento, há duas filhas, que vivem no estrangeiro. Uma, bióloga, está a fazer o doutoramento na Holanda. Outra, artista plástica, vive em Berlim. A bióloga telefona ao pai uma vez por semana, a outra uma vez por mês. O pai visita-as uma vez por ano. Interessa-se mais pelo que elas estudam do que pelo que elas são. Por exemplo, nunca lhes pergunta pelos namorados. Prefere falar de arte e de biologia. A arte contemporânea intriga-o, não percebe bem aquele mundo. Se vai a exposições, estranha-as como a textos escritos em línguas desconhecidas. Mas há naquele ambiente qualquer coisa que o fascina. Talvez uma sensualidade difusa, uma liberdade desconhecida. Ao fazer perguntas à bióloga, fica perplexo com o que ouve. Percebe que o nosso futuro vai ser muito diferente do nosso presente.

Quando estudava na faculdade, antes do 25 de Abril, lia muito: política, literatura, filosofia. Andou um tempo fascinado com os Situacionistas e o Guy Debord. Leu e releu "A Sociedade do Espectáculo". Depois de terminar o curso de economia, esteve décadas sem ler, a não ser dossiês e relatórios. Se pensa nisso, sente um remorso. Há tempos, recomeçou a ler. Uma amiga deu-lhe a conhecer novos escritores. O livro de um deles, "Desgraça", persegue-o. Leu esse romance em que Coetzee fala de um homem com a idade dele: "Para um homem da sua idade, cinquenta e dois anos, tem resolvido bastante bem, segundo ele, o problema do sexo. Nas tardes de quinta-feira vai de carro até Green Point. Pontualmente, às duas da tarde, carrega na campainha da entrada para a Windsor Mansions, diz o nome e entra. À sua espera, à porta do 113, está Soraya. Dirige-se directamente para o quarto, que tem um cheiro agradável e uma iluminação suave, e despe-se. Soraya sai da casa de banho, deixa cair o robe e, deslizante, deita-se na cama a seu lado." Dois anos mais tarde, ao voltar a ler este começo, surpreendeu-se que o homem do romance não tivesse já, como ele, cinquenta e quatro anos. E sorriu, com um sorriso triste...

* colunista regular do "Actual"

Texto publicado na edição do Expresso de 2 de Abril de 2010