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João Vieira Pereira

Só faltava mesmo culpar quem especula

João Vieira Pereira (www.expresso.pt)

Estará Portugal a ser alvo de um ataque de especuladores ou estaremos perante o reflexo da actual situação económica portuguesa?

Os especuladores, os tais maus da fita, aproveitam as oportunidades do mercado para realizar mais-valias. Por isso antes de culpar este tipo de sanguessugas vertebrados que se sentam na City ou em Wall Street olhemos para os elementos fundamentais da economia portuguesa.

Sejamos sérios, o século XXI ainda mal começou e já não deixa saudades. É pena não ser possível pegar nos últimos dez anos e simplesmente deitá-los fora.

Os excessos foram cometidos por todos. O euro foi para Portugal até agora uma oportunidade utilizada para 'enriquecer' com recurso ao crédito barato.

E apesar dos alertas de alguns economistas, como por exemplo João Ferreira do Amaral, ninguém deu ouvidos às vozes da 'desgraça'.

Banca, empresas, Estado e famílias. Todos tiveram culpa no frenesim de consumo, investimento, crédito, sem que se parasse para perguntar como iríamos pagar.

Portugal vai registar esta década um crescimento de 0,47%, o pior desde 1910-1920 quando a economia portuguesa apenas cresceu 0,82%.

Um dos principais factores que contribuem para este descalabro é o crescimento galopante do endividamento. Em 1995 os portugueses deviam 21 mil milhões de euros aos bancos, hoje ultrapassa os 135 mil milhões. Para suportar este crédito os bancos necessitam de se endividar no estrangeiro.

Como consequência a factura que temos de pagar ao exterior não pára de crescer. A diferença entre aquilo que Portugal recebe do exterior em dividendos, juros e outros rendimentos e o que paga atinge quase os 700 milhões de euros por mês. Este é o maior valor desde 1986.

Como é impossível manter esta situação por muito tempo e como não existem perspectivas de a situação melhorar, quem nos empresta dinheiro aumenta os juros para cobrir o risco de endividamento.

Pelo meio aparecem os especuladores que jogam com o risco de Portugal para fazerem mais-valias e que alimentados por relatórios de analistas e economistas, que têm os seus próprios interesses (sejam eles quais forem), ajudam a piorar a situação.

Como saímos daqui? Por duas vias, pelo crescimento ou pela redução da despesa. A primeira é incerta, a segunda incerta é, já que os políticos preferem continuar a esconder a realidade com cortes mansos na despesa. Pode ser que afinal os especuladores sirvam para nos fazer compreender que não existem alternativas.

Texto publicado na edição do Expresso de 24 de Abril de 2010