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Expresso

Seis vergonhas do Banif

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1 O Estado era o maior acionista do Banif desde 2013. Ou seja, era um banco público. Gerido. Perdão, mal gerido por uma administração que sempre agradou ao acionista. Isto apesar de nunca ter conseguido encontrar uma solução para o banco. Durante três anos tentou convencer a todo-poderosa Direção-Geral da Concorrência em Bruxelas que o Banif era viável sem a ajuda do Estado. Nunca conseguiu. O que dizer de uma gestão que não consegue sequer aprovar um plano que garanta a viabilidade económica e financeira de uma empresa? O BPI teve ajuda do Estado e já devolveu o dinheiro. O BCP teve ajuda do Estado e já devolveu o dinheiro. A Caixa teve ajuda do Estado e prevê devolver o dinheiro em 2017. Todos negociaram com Bruxelas e conseguiram aprovar planos de reestruturação. Só o Banif não.

2 Esta vergonha tem de ser partilhada por Maria Luís Albuquerque. A ex-ministra das Finanças tutelava o banco. A ela competia garantir que o dinheiro e os interesses públicos estavam a ser defendidos. Mas durante três anos a única coisa que foi possível garantir foi o buraco que agora o contribuinte vai ter de pagar (já vamos a esta parte). O Banif pode não ser um caso de polícia mas é um caso gritante de incompetência. E de irresponsabilidade política. Como dizia João Miguel Tavares, esta semana, no “Público”. Há pessoas que têm de ser impedidas de voltar a ocupar cargos políticos.

3 Para compor este triste ramalhete Maria Luís deu esta semana uma entrevista onde disse que houve problemas de supervisão no Banif. Carlos Costa, o governador do Banco de Portugal, tornou-se o saco de porrada preferido dos portugueses. Da esquerda à direita. Sobre este assunto apenas dois pontos. O Banif, fruto da injeção de capital por parte do Estado, sempre cumpriu os rácios de solvabilidade. E a fatura agora a ser paga é em grande parte exigência de Bruxelas de se proceder a um haircut de 66% no valor de alguns ativos. Intransigência até criticada pelo atual Governo. A crítica que pode e deve ser feita ao regulador prende-se com o nível de imparidades que deviam ter sido registadas e não foram. Desde o início da crise mais de €35 mil milhões de imparidades foram registadas na banca, por ação do supervisor. A limpeza do sistema financeiro tem de ser feita de forma lenta. Ou, em alternativa, podíamos nacionalizar toda a banca e passar a fatura para os impostos.

4 O responsável pela supervisão dentro do Banco de Portugal é António Varela. Nome imposto na instituição por Maria Luís Albuquerque depois de Pedro Duarte Neves ter caído, alegadamente por causa de erros de supervisão no caso BES. Varela era o nome que a ex-ministra queria como governador do Banco de Portugal. E que transitou diretamente da administração do Banif. Do qual até era acionista. E opositor desta decisão que foi agora tomada.

5 Daqui a uns anos vamos estar a discutir o negócio milionário que o Estado ‘deu’ ao Santander para conseguir vender o Banif. Eu também gostava de comprar 3% do sistema financeiro português por 150 milhões deixando todo o risco do lado do Estado. É uma espécie de scut bancária. A parte positiva é que o problema ficou resolvido e de forma bastante célere. Valha-nos isso.

6 Agora a dolorosa. São pelo menos 2,4 mil milhões, mas podem ser mais. Muito mais. A opção, política, foi proteger os depositantes em detrimento dos contribuintes com o argumento de que a falência do Banif punha em causa a sustentabilidade do sistema financeiro. Esperem. Onde é que eu já ouvi este discurso? Não vos lembra nada? O BPN também era sistémico quando foi nacionalizado. Anos depois sabe-se que foi um erro colossal não deixar o banco falir. E porque não podem os bancos falir? Se todos os dias empresas fecham as portas, porque temos esta estranha obrigação de andar a salvar bancos? E para que serve um fundo de garantia de depósitos se o mesmo nunca é usado? Porque é que eu e você temos de pagar a incompetência de todos os intervenientes no caso Banif. Mário Centeno não tem culpa nenhuma neste processo, mas tem, enquanto ministro das Finanças, a obrigação de explicar muito bem a todos os contribuintes porque não deixou o banco simplesmente fechar. Tal como Bruxelas queria.