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Expresso

J.L.Saldanha

As obras verdes

O fim da era do petróleo barato está a forçar as sociedades ocidentais à mais dolorosa reconversão das últimas décadas. Os governos têm duas possibilidades: prolongar a agonia do doente com subsídios que adiam a reconversão ou usar os poucos recursos disponíveis para estimular a reconversão e proporcionar ajudas pessoais aos mais atingidos por esta crise.

A escolha está entre o "corporate welfare" e a ajuda social aos que têm mais dificuldades na adaptação.

As obras públicas são o outro lado da questão. Em geral, querem dizer estradas, pontes e túneis. A questão das acessibilidades - como costumam dizem solenemente os senhores autarcas.

Já as temos, e quanto à sua capacidade para fazer crescer a economia estamos conversados. Parece haver mesmo uma relação inversa entre o número de quilómetros de auto-estradas e o crescimento do produto interno bruto.

Na economia pós-petróleo barato, obras públicas só podem ser formas públicas de ajudar a reconversão da economia. Principalmente ajuda às energias renováveis. Se e se for possível fazê-lo bem e não forem criados elefantes brancos com umas manchas verdes.

Estão aí - nas energias renováveis - as únicas boas notícias.

O sol do Sul de Portugal - a zona da Europa com mais sol - não serve só para atrair turistas. As notícias animadoras sobre a explosão das centrais solares e a constante baixa de preço da sua produção mostram que temos tantos recursos a médio e longo prazo como se tivéssemos petróleo.

Seria desejável que as autoridades públicas - tão eficientes a criar deveres e encargos que embaraçam a iniciativa privada e não têm qualquer justificação - pelo menos não impedissem que isto aconteça. Como no caso da central solar que estava com dificuldade em aumentar o espaço de construção por faltar a licença de utilização de uma reserva agrícola.

A posição do Governo não é fácil, a sua responsabilidade enorme. Os pescadores, os camionistas e os agricultores só querem uma coisa: subsídios que adiem a sua adaptação às novas condições. As construtoras querem empreitadas.

Obras, podemos e devemos ter: transportes de massa confortáveis e rápidos para os grandes centros urbanos que lhes permitam funcionar. Comboios de razoável velocidade que liguem o interior ao litoral (agora, com os espanhóis a fazer contas, é melhor esquecer de vez o TGV) e mais, muito mais linhas para o transporte de mercadorias. Barragens também, mais auto-estradas não.

Obras públicas verdes em vez de simples acumuladoras de betão.

As reivindicações de ajuda por empresas que vêem na cornucópia de subsídios a sua única salvação é a grande tentação do Governo e o grande perigo para a economia: os agricultores são o melhor exemplo. Falam dos pagamentos devidos pelo Governo e do seu aumento com a tranquilidade e a boa consciência do funcionário que trabalha para o Estado e vive do salário que este lhe paga.

Em vez de procurar formas de produção que reduzam a factura do petróleo, um subsídio maior para o gasóleo agrícola. A cultura dos subsídios perpetua-se e multiplica-se.

Adenda: As palavras irresponsáveis do ministro da Agricultura que indispuseram gravemente a CAP podiam ter criado um sério problema. O Governo correu o risco ficar nas mãos com milhões e milhões de subsídios que não iria conseguir distribuir.

Fiscalista