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Expresso

J.L.Saldanha

A Alternativa de Direita

Se fosse um plano tinha funcionado: enredar a direita numa rede de lugares e sinecuras públicas tão densa e eficaz que a ampute daquele "quantum satis" de liberalismo que é a condição mínima para que uma direita possa viver.

Ao princípio eram as empresas públicas defendidas pela esquerda, endeusadas pela constituição e ocupadas pelos gestores do PSD. Acabaram porque eram de uma inteira ineficiência e havia interesses poderosos interessados nas rendas ligadas às privatizações.

Vieram as empresas municipais primeiro para tarefas reais em Lisboa e no Porto, depois para tarefas imaginárias em Lisboa, no Porto e no resto do país. Jovens com cursos de gestão, ligados ao aparelho do PS ou do PSD brincam aos empresários com dinheiros públicos. Ou que se limitam a criar empregos como é o caso daquela empresa que publica o boletim do município com dois administradores, uma secretária e um jornalista.

Entre municípios, juntas de freguesia e empresas públicas municipais são milhares e milhares de empregos e de empregados que, em período eleitoral, pagam as quotas e se travestem em bases dos partidos. O PSD elegeu Manuel Ferreira Leite porque era quem parecia mais distante do profuso caciquismo local que esquarteja o país e o atribui aos seus afilhados políticos. Ainda assim foi eleita por um aparelho político dominado por esse mesmo caciquismo local.

Harakiri? Não: a consciência desses ávidos candidatos a cargos locais que os seus melhores amigos e directos representantes eram eleitoralmente invendáveis. Um candidato do tipo Santana/Jardim é quem melhor compreende os anseios e aspirações do presidente da junta de freguesia com um filho licenciado em gestão por uma universidade privada e uma filha licenciada em sociologia por uma universidade pública. Arranjar empregos e subsídios para todos toca o coração sensível das bases.

O que eles sentem e o que os inibe de os apoiar é a dificuldade em arranjar comprador para candidatos desse tipo.

Com as dificuldades que a crise internacional está a criar ao Governo, um PSD que representasse a direita teria uma possibilidade dourada de contrapor à política de Sócrates uma sua versão liberal: Manuela Ferreira Leite não fará nada disso porque nunca será capaz de ultrapassar os consensos e os lugares comuns. Passos Coelho não foi eleito, porque essa sua política mesmo timidamente enunciada (privatização da Caixa Geral de Depósitos) deixa as bases inquietas e é desmentida pela sua política de alianças e pelo seu populismo em relação aos combustíveis. Santana Lopes não tem nada para oferecer em momentos de corte de despesas.

Em suma: o PSD não consegue ser uma oposição de direita.

Noutros tempos, mesmo com a sua profunda ligação ao sector público, conseguia-o. Depois de privatizada a parte mais importante do sector público deixou de o conseguir.

Hoje, com o euro, a contenção de despesas é uma imposição porque há uma disciplina semelhante à do padrão-ouro.

Sem o regresso a um escudo desvalorizável (a opção da esquerda), o orçamento tem que estar equilibrado e só depois de o ter equilibrado o Governo readquire alguma liberdade de escolha.

A política de Sócrates tem por isso uma alternativa de direita (menos despesas públicas) e uma alternativa de esquerda (abandono do euro).

Uma alternativa de direita que o PSD deveria poder formular se conseguisse ser um partido de direita: dito de outro modo, se não tivesse como espinha dorsal uma clientela tão faminta.

Fiscalista