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Inês Pedrosa

Os incuráveis

Portugal tem o vício da dor.

Inês Pedrosa (www.expresso.pt)

Conheço várias pessoas que sofrem de delírios de grandeza, isto é: julgam-se criadores de obras grandiosas (que nunca ninguém viu) e agem e falam como se assim fosse. Não me refiro só nem principalmente a políticos. Esse delírio leva-as a considerarem-se mal tratadas, vítimas de invejas ou do obscurantismo circundante, e a sentirem que o país está em dívida para com elas. Conheço pessoas que se sabem obsessivas, ou compulsivas, ou ambas as coisas, e não se querem tratar. A psicanalista brasileira Marci Dória Passos assinala (na introdução do excelente ensaio "A dor que emudece - Travessia clínica de Louis Althusser", que infelizmente ainda não tem edição portuguesa) que "Freud observou que as queixas do paciente não correspondiam, necessariamente, ao desejo de cura. O apego a determinados sintomas evidenciou um gozo, sem sempre admitido, na manutenção daquilo que produz dor".

Portugal tem o vício da dor. Quem venha de fora não compreende porquê: a beleza da paisagem, a amenidade do clima, a segurança relativa (ou absoluta, se o turista vier de Espanha ou do Brasil, por exemplo), a qualidade da gastronomia, a variedade dos lazeres, tornam estranho este apego à mágoa. Não se trata de tristeza, mas de um sentimento de injustiça, um eco, eternamente abafado, de revolta: ninguém nos compreende, ninguém nos dá valor, ninguém nos ama.

E nós, o que amamos? De que modo manifestamos esse amor? O que fazemos para que nos amem? A resposta habitual é que o amor não tem motivo nem justiça, as coisas são como são. Ou, pior ainda: que para se ser amado é necessário não amar - pelo menos é necessário não manifestar esse amor. Crescemos a ouvir isso - as meninas, por umas razões, os rapazes por outras. Todas igualmente tontas - razões de fachada, jogos de aparência que nos ensinam a jogar à defesa, pressupondo e antecipando os ataques. Esse método de educação criou um povo desconfiado - ou seja, desprovido de esperança, nos outros e em si mesmo. E supersticioso, e fatalista. Não há momento de felicidade que não nos surja ensombrado pela desgraça futura: é bom demais para ser verdade, meditamos. Essa meditação contribui para a ruína. Evitamos manifestar-nos felizes para não despertar os monstros da inveja, que são muitos e têm o sono leve: cá se vai andando, dizemos, e é o máximo que aprendemos a dizer. No dia-a-dia, este modo de ser transforma-se em agastamento e má-vontade - nas repartições públicas, nas lojas, nas filas de trânsito, em todos os lugares de interacção social. O sorriso é uma dádiva rara - não vá o outro tomar-nos por parvos, ou esticar-se no que quer de nós.

Por isso, quando li na passada semana o resumo do estudo que revela que um quinto dos portugueses sofre de perturbações psiquiátricas, só estranhei a percentagem não ser maior. Não espanta que os mais afectados sejam "as mulheres, os jovens e as pessoas sós". Perdoa-se a redundância: as mulheres, em Portugal, são em geral - mesmo ou sobretudo as casadas - "pessoas sós". Sós também pela cultura de rivalidade feminina, acirrada, em termos laborais, artísticos ou políticos, pelo império federativo - ainda fortíssimo - dos homens, que protegem o seu território e asseguram (os números mostram-no) que elas nunca atinjam o protagonismo ou os proventos deles. Os jovens vivem hoje em Portugal sem horizonte visível, a não ser o da fama imediata e frustrante dos concursos televisivos.

Sabíamos já que somos líderes no consumo de antidepressivos. Agora ficámos a saber que estamos no topo europeu da doença mental, com números que se aproximam dos Estados Unidos, "o país com maior prevalência de perturbações psiquiátricas do mundo", segundo afirmou o coordenador nacional de Saúde Mental. É normal que um país onde a pena de morte existe, a posse de armas é livre, a segurança social é quase inexistente (até há dias, mesmo inexistente), os ataques terroristas uma ameaça permanente e as mortes em guerra um dado constante, tenha pouca saúde mental. Pergunto-me todavia se estas estatísticas abarcam o Afeganistão, o Irão, a China ou mesmo Angola. À partida não parecem lugares favoráveis à sanidade.

O estudo demonstra que a maioria das pessoas com doença mental não está a ser acompanhada por especialistas. Há um preconceito enorme em relação à psiquiatria - preconceito esse que é, por si mesmo, um sintoma nacional de doença. Talvez fosse útil criar uma campanha explicando que ir a um psiquiatra não é ser doido - antes pelo contrário. Os que se riem estrepitosamente da terapia psiquiátrica deviam começar por atender às suas próprias lágrimas. E chorá-las, em vez de as disfarçar. Seria um começo.

Texto publicado na edição da Única de 2 de Abril de 2010