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Henrique Monteiro

Uma mão cheia de nada...

A eleição de Passos Coelho mudou, de forma radical, a forma de fazer política. Deixou de haver 'casos' e passou-se à política pura. E - pasme-se! - o Governo já elogia o PSD. O que tem de ser...

Henrique Monteiro (www. expresso.pt)

A solução do problema do país - se é que o país tem solução - está, de novo, nas mãos de Sócrates. Mas, desta vez, a sua vontade não chega. O primeiro-ministro terá, provavelmente, de refrear os seus ânimos, diria os seus instintos de 'animal feroz', ainda que com receio de que esta frase seja interpretada como insultuosa.

A ideia não é, contudo, essa.

A ideia reside neste facto: Pedro Passos Coelho foi eleito e a estratégia do PSD mudou - se para mais ou menos eficaz, o tempo dirá. A mudança centra-se em dois pontos fundamentais. Por um lado, acabou a discussão dos 'casos' e passou-se para a discussão política, e daqui decorre que, por outro, Sócrates deixe de ser apresentado como a origem do mal e ganhe uma nova oportunidade de refazer a sua imagem desgastada.

Sejamos práticos: Sócrates não tem hipóteses de ser eleito pela terceira vez primeiro-ministro. Assim, o melhor que pode fazer é sair com dignidade do cargo, se possível cumprindo o mandato. Para isso, necessita de ter um acordo mais ou menos estável com o PSD (com o CDS não parece viável e com a esquerda PCP/BE é impossível). Ora, para esse acordo funcionar, a ideia é o PSD poder ter algum protagonismo político. Ou seja, quando Passos Coelho faz propostas concretas - e vai fazer muitas, porque está no seu ADN -, é mais aconselhável o elogio de Teixeira dos Santos (ainda que vagamente envenenado) à "boa vontade social-democrata" na consolidação orçamental do que a acusação de ele vir com "uma mão cheia de nada", como no Parlamento disse Vieira da Silva.

O Governo pode estar a utilizar a velha táctica do 'pide bom' e do 'pide mau', pondo um ministro a elogiar e outro a criticar de forma concertada, para desorientar o adversário. Mas é bom que se ponha de acordo sobre o objectivo. Quer, ou não quer, contar com o PSD?

Ora é aqui que entra o feitio, ou a forma de ser da pessoa que é primeiro-ministro: ou Sócrates reúne um fôlego de grandeza (que andou escondida) ou vai deitar tudo a perder. Porque Passos Coelho parece ter a paciência de um monge budista e tem ar de quem só vai a jogo pelo seguro. E, como neste momento a fase é 'quem abre a crise perde', pode acontecer que Sócrates acabe a dar a ideia de que é mais parte do problema do que da solução.

Do lado de Passos, o risco é convencerem-se os socialistas e o eleitorado de que ele tem medo de eleições. Mas é um risco mais distante. Os sacrifícios são tantos que quem está no poder fica queimado. O Governo tem o seu cálice amargo para beber. E o pior que lhe pode acontecer é ter de bebê-lo sozinho - e até ao fim.

Texto publicado na edição do Expresso de 24 de Abril de 2010