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Henrique Monteiro

Uma campanha errada

Se refletirmos sobre a atual campanha eleitoral dificilmente chegaremos a conclusões positivas. Em resumo, esta campanha não serviu para nada nem para ninguém e deu sinais muito errados ao país.

Henrique Monteiro (www.expresso.pt)

É verdade que a campanha não motivou quase ninguém e que se espera uma abstenção elevada. Mas acontece que estes dias de volta ao país pouco ou nada serviram... o país. Salvo uma grande surpresa que ninguém imagina, vai manter-se o inquilino em Belém. Não é grande feito - todos os Presidentes foram reeleitos e a única dúvida parece ser quantos pontos acima dos 50 por cento ficará Cavaco. Poderia chamar-se a isto uma vitória, mas a verdade é que Cavaco sai da campanha pior do que entrou. O BPN e aquela casa da Coelha deixam-lhe uma nódoa que custará a sair - a menos que ele tenha explicações melhores.

Alegre pode - de acordo com as sondagens - arrepender-se da campanha que fez. Nem carne nem peixe. Nem foi o homem que costuma ser nem um indefetível de Sócrates. O meio-caminho, as meias-tintas foram-lhe fatais. Se não fizer o resultado do pior PS com o pior Bloco de Esquerda (ou seja, cerca de 30%), para que lhe valeu a campanha?

Nobre pode ter uma alegria, a confirmarem-se todos os estudos que lhe dão mais de 10 por cento. Pode bem ser o vencedor da noite, mas pouco mais será do que isso - se é que alguma vez acreditou que poderia ser muito mais do que uma voz no deserto (e eu, que aqui reconheço ser seu amigo, acho que uma voz no deserto, com a qual nem sempre concordo, já é bastante).

O resto é pouco, ou nada.

Entretanto, o primeiro-ministro, que tentou relacionar-se o menos possível com isto, andou a vender o país por diversas latitudes. É a vida, como diria Guterres: quando não há dinheiro tem de se ir arranjá-lo. Mas é uma vida triste... Não sei se ele o sente, mas para o comum dos portugueses parece bastante doloroso ver ditadorzecos erigidos em salvadores da nossa pátria, por via de nos comprarem uma dívida que de pouco nos serviu contraí-la. É certo que temos autoestradas e submarinos, mas quantos os trocariam agora por menos desemprego, mais salário e um clima menos depressivo?

E, entretanto, a campanha entre os grandes candidatos, Cavaco e Alegre, foi discutindo quem mais defendia o Estado Social. Alegre defende-o com a vida, como os românticos. Cavaco com a razão, como os professores. Um e outro acham que há vários direitos, nenhum fala de deveres, porque isso é coisa arredada do discurso eleitoral.

E assim foram passando a ideia de que nada de substancial tem de mudar. Mas, ainda que seja bom mudar de Governo, haver alternância, não há um único problema estrutural do país que agora se possa resolver apenas por essa via. E aqui está o que Cavaco e Alegre esconderam.

Nenhum se mostrou capaz de mobilizar o país, de o salvar.

Henrique Monteiro

Texto publicado na edição do Expresso de 21 de janeiro de 2011