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Henrique Monteiro

Quando o anormal é norma

Grandes desastres políticos começaram pela banalização de erros e mal-entendidos.

Henrique Monteiro (www. expresso.pt)

 Se a falta de credibilidade é preocupante, as reacções que pode desencadear não são menos. É preciso estar atento.

Esta semana, e em tempo que podemos considerar recorde para a Justiça portuguesa, foi deduzida acusação contra três gestores do Taguspark. Em suma, são suspeitos de terem pago a Luís Figo uma verba que tinha, entre outros, o objectivo de o levar a apoiar em acto público o PS e o seu líder nas legislativas.

A maioria das reacções que, na rua, se ouvem a mais este caso é de profundo desinteresse. Por um lado, a Justiça está de tal modo desacreditada que o acção de um magistrado (por muito competente e justo que seja) se tornou uma espécie de acto de fé. Existem os crentes e os descrentes, nada mais. Por outro lado, o primeiro-ministro já se meteu (ou foi metido) em tanta trapalhada, que as opiniões sobre ele parecem também baseadas na fé: há os que crêem e os incréus.

Mas a grande maioria, claro, são agnósticos. Não sabem se a Justiça e as suas orporações querem perseguir Sócrates ou se o primeiro-ministro vai fazendo sucessivas fugas em frente através de habilidades de linguagem.

A maioria está cansada destas histórias e pensa - bem! - que elas não trazem nada de positivo.

Assim se chegou àquilo que considero uma estranha 'normalidade': as acusações graves sucedem-se e nada acontece. Nem o chefe do Governo é responsabilizado por o que quer que seja, nem os agentes da Justiça são penalizados por produzirem suspeitas infundadas.

Esta estranha normalidade tem um preço: o desinteresse total pela coisa pública, pela República, pela política. A ideia de que a corrupção é geral, de que os políticos, os jornalistas, os juízes, os advogados, os empresários e, no geral, as élites do país são todas iguais, indignas de confiança, prontas a colocar os seus interesses mesquinhos acima dos interesses do país.

A irresponsabilidade acentua-se perante uma crise de mais de meio milhão de desempregados, em que um quarto de milhão de pessoas depende da caridade para comer. A ideia de que é necessário algo excepcional para redimir o país nasce e desenvolve-se. E este é o caldo de cultura para desgraças políticas.

Não há muito tempo para redimir o regime saído do 25 de Abril - e não fosse sermos da UE ninguém sabe como estaríamos.

Ou alguém, de dentro do sistema, e partindo dele, toma a sério as mudanças necessárias, ou corremos claros riscos.

As grandes redenções, como as grandes catarses, trazem sempre à mistura algo de totalitário, de intolerante. É preciso estar atento à cura, para que com ela não piore esse doente que é a nossa democracia. Mas já não é possível pretender que tudo isto é normal.

Todos sabemos que não é.

Texto publicado na edição do Expresso de 17 de Abril de 2010