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Henrique Monteiro

A solidão de João Cravinho

O ex-ministro de Guterres queixou-se de estar sozinho na cruzada contra a corrupção. Pessoalmente, estou com ele e acho que a maioria das pessoas de bem também está ao seu lado e o incentiva a continuar.

Henrique Monteiro (www.expresso.pt)

João Cravinho era uma voz incómoda no PS. Tal como nas cortes antigas acontecia àqueles membros da casa real que punham a autoridade do chefe em causa, a situação resolveu-se nomeando-se Cravinho para um bom lugar no estrangeiro. A diferença é que, havendo aviões, os exilados podem passar pela sede do poder várias vezes por ano, ou mesmo por mês.

É assim que Cravinho continua a 'assombrar' o edifício do Governo, lembrando - cada vez que fala - um pacote anticorrupção da sua autoria que o seu partido recusou sem sequer discutir, quanto mais votar. Esta semana esteve numa Comissão Parlamentar dedicada ao assunto para, mais uma vez, defender o seu ponto de vista simples: "A corrupção política está à solta", o tráfico de influências é enorme e este é o principal cancro social. E pode-se combatê-lo de forma eficaz, quando se quiser despartidarizar a administração pública e punir verdadeiramente os infractores, ainda que com punições administrativas (como, por exemplo, a demissão imediata para quem não apresenta as declarações de rendimentos ao Tribunal Constitucional).

Só numa coisa Cravinho se engana. Quando diz que está isolado... Estará nos círculos do poder, onde tantos se calam para poderem continuar nos seus lugares. Mas não está na opinião pública. Devo dizer que, pessoalmente, subscrevo no essencial o que diz João Cravinho e acho-o um exemplo daquilo que deve ser um político antes de tudo. Não que Cravinho não tenha cometido erros políticos, alguns que ainda pagamos (recordo o modelo de pagamento das SCUT), mas porque jamais se refugiou nos subterfúgios legais para impedir a discussão e a transparência dos negócios públicos.

É isto a república: não há homens infalíveis que não cometam erros; mas é imperioso haver um sistema que afasta os de má-fé, os que vivem à custa do erário público, os que malbaratam o dinheiro de todos. O caso dos submarinos aí está de novo para, junto a tantos outros, nos recordar do que para aí vai...

P.S. - Grande notícia para quem gosta de música: o afastamento de Christoph Dammann de director artístico de São Carlos. Quem viu o ponto a que chegou aquela programação só pode aplaudir e pedir à ministra que seja rápida e ponha cuidado na escolha do substituto. Em Portugal é possível haver boa música, como se viu esta semana (e se pode ver em tantas outras) na Gulbenkian. Um bravo a Michael Corboz, o maestro, e também à orquestra, ao coro e aos solistas, com destaque para Sandrine Piau e Carlos Mena, que interpretaram a "Paixão Segundo São Mateus" de Bach a um nível de excelência.

Texto publicado na edição do Expresso de 2 de Abril de 2010