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Henrique Monteiro

O jacaré tossiu! Houve um USexit do mundo tal como ele é

Henrique Monteiro

Henrique Monteiro

Redator Principal

O inesquecível narrador de futebol, precocemente desaparecido, Jorge Perestrelo, ao ver o então jogador (e atual treinador) Petit preparar-se para marcar um livre direto de uns 40 ou 50 metros, disse com o seu tom inconfundível: ‘Ó meu, daí nem que o jacaré tussa!’. E segundos depois, perante um golo monumental acrescentou: ‘Olha, o jacaré tossiu!’ . Estou como ele. Nunca acreditei que Trump vencesse as eleições nos EUA, escrevi toda uma crónica ontem baseada no falso pressuposto de que Hillary as ganharia e nos problemas que isso acarretaria. Hoje, tenho de pedir desculpa e acrescentar com o mesmo humor de Perestrelo: ‘Olha, o jacaré tossiu’.

Tossiu e não foi pouco. Apesar de durante a noite manter a esperança numa vitória da democrata – não por a achar o suprassumo, mas por desejar a derrota do arrogante, malcriado, imprevisível e perigoso candidato republicano; de ter esperança ao ponto de Ricardo Costa me dizer – e bem – que estava em negação, entreguei os pontos quando aquele ser cor de laranja venceu a Pensilvânia, que nenhum Republicano vencia desde 1988, há 28 anos.

Não foram só os brancos pobres e o chamado rust belt. Foi a América mais América que há que pretendeu eleger Trump. Salvo naqueles estados onde a América é uma exceção, ou quase, como a Califórnia, Nova Iorque, Washingtom D.C. ou Massachussets e mais um punhado deles (que pela dimensão do eleitorado podem dar a Clinton a maioria do voto popular, mas menos quase meia centena de delegados do que ela precisava) a maioria dos americanos que são americanos, daqueles que vemos ser americanos nos filmes, preferiu Trump.

E isso significa que preferiram:

1) O país mais fechado do que aberto;

2) O fim das oligarquias e do modo como os partidos têm governado o país; o fim dos tiques de arrogância das elites;

3) Dar um sinal que detestam Bill Clinton e a sua administração e, por extensão, Hillary e Obama;

4) Dar uma nega do tamanho do mundo à importância da União

Europeia e a sua cultura;

5) O fim do politicamente correto;

6) Um presidente que não paga impostos;

7) Um presidente que mostrou não ter a mínima educação;

Tal como Ricardo Costa, também penso que isto não é o fim do mundo. É só o fim do mundo como o conhecemos, levado à cena por pessoas que não reconhecem que o mundo mudou. Temos os nossos Órban, Fico, Beppe Grillo, Le Pen, Iglesias. Se houve um Brexit (saída da UE) demagógico, populista e mal explicado no Reino Unido, houve um USexit (saída do mundo tal como ele é) nas eleições americanas.

A vitória de Trump põe em causa equilíbrios consideráveis. Da relação com a Rússia, à tensão com China e animosidade extremada dos islâmicos. Mas o pato bravo que ascendeu à Casa Branca levou a que uma boa parte do povo detestasse o ‘eles’. E este ‘eles’ é o politicamente correto, a espécie de monarquia que passa de pai para filho, de marido para mulher; os impostos sempre mais altos sem benefícios para os que os pagam; legislação fraturante e pouco partilhada e aceite por grande parte dos eleitores; o duplo critério que se utiliza para analisar propostas e frases, dependendo de quem as diz.

Temos tudo por cá. Em Portugal e na Europa. Não vale a pena esconder que os nossos Trumps, com menos boçalidade e menos má criação, anda, por aí. É natural que em eleições deste lado do Atlântico, na França, na Alemanha e noutras paragens, o jacaré também tussa. Há anos que andamos a brincar com o fogo, não sei se ontem não foi o dia em que nos queimámos.