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Luís Freitas Lobo

Um admirável 'mundo novo'

O Benfica de Jesus. Desde Mourinho que um treinador não se colocava de forma tão clara no centro das mudanças no futebol português.

Luís Freitas Lobo (www.expresso.pt)

Quando Luisão abriu os olhos e descobriu aquela bola perdida na área do Braga foi como se, de repente, se abrisse uma clareira no jogo e no... campeonato. Não perdeu tempo a pensar e rematou logo. Golo e o 'mundo benfiquista' redescobriu um modo de vida futebolístico (na classificação e na qualidade de jogo) que parecia já perdido num passado distante. Este Benfica converteu-se em muito mais do que uma simples equipa. É uma espécie de reencontro com a história. Os estádios, adeptos e adversários sentem isso. A explicação está no futebol praticado. Um estado de alma, táctico e mental, que mudou o statu do futebol português.

O impacto e influência de Jesus em apenas uma época no Benfica é superior ao de Jesualdo, no FC Porto, em três. É evidente que as realidades são diferentes (a estrutura portista absorve qualquer treinador e mais que ser ele a influenciá-la é ela que conduz a sua acção, enquanto que o Benfica necessitava claramente de um treinador capaz de a condicionar e até redimensionar), mas não é fácil mudar um statu quase granítico. Por isso, mais do que falar num "fim de ciclo" no FC Porto (depois de quatro títulos consecutivos) será futebolisticamente mais saudável (e justo) falar num 'início de ciclo' no Benfica. Desde Mourinho que um treinador não se colocava no centro das mudanças no futebol português, alterando a sua correlação de poderes e mexendo com as decisões estratégicas dos dois grandes clubes. A obra de Jesus tem, pois, face visível na relva (o bom futebol) mas a sua detonação atingiu o futebol português (poderes fora das quatro linhas) na sua total dimensão.

Voltando ao futebol jogado, é pacífico dizer que, a partir de agora, a seis jogos do fim, já mais ninguém pode ganhar o campeonato. Isto é, a única situação imponderável que poderia suceder era o Benfica... perder o campeonato. Ou seja, o reabrir da luta pelo título (e alteração do destino) só se o onze da Luz cometer erros até agora invisíveis. O outro 'tipo de jogo', mais calculista, defensivamente mais pensado, mas igualmente impecável tacticamente, que realizou frente ao insolente candidato Braga, disse tudo da 'inteligência e esperteza' deste Benfica de Jesus.

Um pormenor (espaço no relvado) que, por si só, revela esta evolução e visão múltipla do jogo mora na posição de lateral-esquerdo. É o factor Fábio Coentrão, o jogador especificamente mais trabalhado por Jesus no plano táctico, visto ele ter sempre sido um extremo que só pensava em atacar. Coentrão ainda não pode ser considerado, em rigor, um defesa-esquerdo. E digo 'defesa' e não 'lateral', para se perceber a diferença. Continua a destacar-se sobretudo quando arranca desde trás, mas só o facto de Jesus ter conseguido conciliar no mesmo flanco, o esquerdo, dois rebeldes antes insolentes (Coentrão e Di Maria), daqueles que fintam, provocam adversários, voltam a fintar, arrancam e fazem levantar adeptos das cadeiras, mantendo, ao mesmo tempo, consistência táctica defensiva, diz muito da eficácia do seu ateliê futebolístico na Luz.

A Europa é outra questão. O primeiro 'modo de vida' que o Benfica necessita reconquistar reside nos relvados internos. Um processo de construção que não se esgota numa época. Longe disso. O desafio, nesse contexto, será perceber até quando Jesus entenderá este 'novo ciclo do Benfica' como também o 'seu ciclo'. Porque há muito se percebeu que os seus sonhos estão muito além da nossa curta realidade. Porque há muito que uma equipa (e clube) não dependia tanto de um treinador como esta época se percebe, na Luz, em cada 90 minutos que o Benfica joga.

O 'leão' Sincero

Se há coisa em que o futebol (comportamento dos seus protagonistas) é bem mais sincero do que a vida é nos sinais que dá. Raramente engana. Ou seja, no futebol, o que parece é. Os disfarces são todos muito frágeis. Por isso, está confirmado aquilo que já todos suspeitavam. Carvalhal não será treinador do Sporting na próxima época. Uma decisão legítima, no momento certo. Entender as razões, processo e opção, é outra questão. Mas também não é difícil perceber quem será o próximo treinador. Nada existe de mais forte do que imaginar 'Mourinho' (método e discurso) a treinar a nossa equipa. Mesmo que não seja ele a sentar-se no banco. Para Carvalhal, mais do que treinar, o seu tempo em Alvalade foi de reunificação da equipa (táctica e mentalmente) com o seu 'entorno' em permanente mutação. Hoje, o Sporting é 'mais equipa' e Carvalhal 'mais treinador'. Por dentro e por fora. O Sporting, como clube (estrutura e ideia) está no mesmo local. Porque, no futebol, o que parece é.

O factor Segundo

O segundo lugar nunca foi um objectivo natural de qualquer equipa. Chamam-lhe "o primeiro dos últimos". Para o ego de alguns clubes não duvido que a definição faça sentido. Para outros, nem tanto. Seria um meio de entender as diferentes formas de Braga e FC Porto olharem para esse lugar. Mas os novos tempos deram-lhe cor diferente. É a Champions e seus milhões. Por isso, para o FC Porto ele ganhou outro significado. Nos cinco pontos que separam as duas equipas cruzam-se vários factores. O regresso de Hulk, a ausência de Vandinho. Dois jogadores que escrevem a história da época fora das quatro linhas. Em termos de influência na equipa, Vandinho é mais importante para o Braga do que Hulk para o FC Porto, arma sobretudo em lances individuais.

Um jogador sozinho não faz uma equipa. Mas uma equipa tem jogadores específicos por onde começa a fazer-se. Será esta a melhor forma de perceber, para Braga e FC Porto, a diferença entre Vandinho e Hulk.

Ranking da liga - Março-2010

'Motores' da decisão

Um mês que decidiu quase uma época. No trilho do título, o Benfica não alterou o seu onze base mas soube proteger (gerir) os seus jogadores fisicamente mais "delicados". Aimar, Ramires e Saviola, cada qual no seu plano, objecto de recuperações mais específicas de jogo para jogo. Carlos Martins (no lugar 10) e Ruben Amorim (na direita do meio-campo) nunca deixaram, quando entraram, que as "cordas tácticas" da equipa se partissem. Mais difícil é encontrar um substituto natural para Saviola. A natural erosão da competição desgastou o processo de jogo do Braga, mas, na defesa, Moisés nunca deixou a equipa perder as suas bases de segurança. E, assim, embora afastando-se, mantém o olhar no primeiro lugar.

No resto do campeonato, continua a sentir-se um sedutor aroma de bom futebol vindo de Guimarães. São os momentos em que Nuno Assis pega na bola. Em Alvalade, Saleiro ultrapassou (nos golos e toques de classe) o horizonte que se imaginava para ele. Na luta pela permanência, a queda do Belenenses, apesar de se pressentir ter, no ataque, um belo jogador: Lima.

Texto publicado na edição do Expresso de 2 de Abril de 2010