Siga-nos

Perfil

Expresso

Luís Freitas Lobo

O 'império dos sentidos'

Em Liverpool, a bola andou perto da baliza da casa, mas teimou em entrar na redes encarnadas

Phil Noble/Reuters

Rotações O impacto com o 'ritmo internacional', que razões para um treinador mudar a equipa e o horizonte do dérbi. Direitos e deveres.

Luís Freitas Lobo (www.expresso.pt)

O futebol tem muitos caminhos secretos dentro do relvado, mas, numa análise óbvia, a bola teria sempre mais tendência a entrar na baliza da qual estivesse mais perto. Não é assim tão simples. E pensar no golo antes do jogo raramente é boa ideia. Muito do que é um jogo de futebol depende da velocidade a que ele se joga. É a chamada "rotação" de jogo. Quando se entra na dimensão europeia, entra-se no chamado "ritmo internacional" (90 minutos de alta-rotatividade defesa-ataque/ataque-defesa). Em Liverpool, Jesus pressentiu que ia entrar num mundo para o qual as "frequências cardíacas" físico-tácticas da equipa não estavam preparadas. O terceiro golo do Liverpool, construído em quatro passes, começou num canto a... favor do Benfica. A bola, mesmo quando estava mais perto de outras redes, "sabia", pelas indicações do jogo, para que baliza caminhar.

É pacífico dizer que todos os treinadores querem ganhar. Cada um tenta-o à sua maneira. O mistério, desde a bancada, é simples: o que leva um treinador a mexer na equipa? A mudar quando ela está a jogar tão bem? Em geral, a resposta é o receio do adversário. É, por princípio, uma reacção natural. O problema é quando essas alterações retiram a autodeterminação no jogo. Ou seja, quando a equipa fica refém da sua própria estratégia. Sucedeu isso em Liverpool. Jesus mudou a defesa exactamente porque queria que os jogadores desse sector fossem sobretudo isso: "defesas". A mudança teve epicentro nas faixas. Saíram Maxi Pereira e Coentrão, entraram Ruben Amorim e David Luiz (Sidney para central). O desvio de Luiz foi o mais debatido, mas, frente a Kuyt, Jesus não queria um lateral-esquerdo, queria mesmo um defesa-esquerdo. Como o Benfica é uma equipa que sai a jogar desde trás pelos flancos, com os laterais, a ausência desses elementos travou esse princípio de transição. Sem os laterais que lhes levam as bolas, os alas perderam as suas referências-base de apoio, sobretudo Di Maria, que desapareceu do jogo.

É verdade que a equipa chega a esta fase em esforço físico que, mais do que testar o seu estado, testa a sua capacidade de recuperação em períodos curtos. Nesse sentido, Jesus testou os limites da equipa e os... limites venceram. Táctica e humanamente natural. Porque ver Javi, Luisão, Di Maria, Cardozo ou Aimar não acompanharem as subidas do ritmo de jogo tem consequências tácticas. O derby devolve a equipa aos seus pressupostos naturais. Nenhuma destas questões se irá recolocar a Jesus, pelo que o transfer das causas e consequências de Liverpool para Lisboa não existe. Na "casa do Leão", é o último apelo à motivação. Um balneário com um treinador de saída nunca será, por princípio, um balneário fortalecido. E, em campo, a equipa é, directamente consequência disso. A história, no entanto, grita-lhe ao ouvido. É a marca do derby. Para lá das dúvidas tácticas (4x4x2 ou 4x2x3x1, um ou dois pontas-de-lança?) buscar raízes da motivação. Neste crepúsculo leonino, um renascimento: Yannick Djaló. Num momento de crise existencial, ter um jogador que a "nascer de novo" (o seu jogo e golos prova-o) é o ideal para combater o lado cinzento da mente colectiva.

Uma equipa é um conjunto de direitos e deveres. Mudam os jogos, permanecem as obrigações, mudam as liberdades. Num mundo futebolisticamente saudável, as melhores equipas seriam as que conseguissem dar um máximo de liberdade aos seus jogadores sem perder a ordem colectiva. O grande desafio é conseguir fazê-lo no chamado ritmo internacional. Depois desta viagem "intergaláctica", regressemos ao nosso pequeno mundo...

Sinais da estrutura

Diz Bielsa, treinador argentino, que, quando perde, a semana seguinte é um inferno. "É como se não merecesse as alegrias quotidianas. Nem para brincar com a minha filha ou ir jantar com os amigos. Sinto-me como que inabilitado para a felicidade por sete dias".

Cada treinador tem o seu 'lado humano' de viver o jogo. As vitórias e, sobretudo, as derrotas. Porque são estas que mais facilmente o tiram do seu 'casulo profissional' e expõem as suas fragilidades.

Durante três anos, Jesualdo construiu uma personagem 'esfíngica' no banco do FC Porto. Um treinador que se regeu pelo 'antigo testamento' azul-e-branco. Ganhou com ele. Três títulos consecutivos. O mais provável, agora, é, também, cair com ele. O quarto ano era, afinal, uma 'caixa de Pandora futebolística'. Não resistiu a abri-la e de lá saíram todos os males. Nesse momento de 'insustentável leveza do ser/treinador', fragilidades expostas, será estranho ouvir o presidente dizer que uma razão para a melhoria do Benfica esta época foi a qualidade do novo técnico.

Mas, mesmo quando ganhou, o professor também parecia inabilitado para a felicidade. As bancadas nunca fizeram dele um herói. Apenas um vencedor natural. Um mero 'campeão da estrutura'. Também não fazem agora dele um vilão. Perdeu com a mesma naturalidade com que ganhou. Refizera três equipas mas falhou a quarta reconstrução. Acreditar ou não na 'duração do êxito' nunca pode ser uma dedução emocional. Para Jesualdo, um ser consumido pelos detalhes, por querer uma resposta para cada inquietação, todo este cenário expõe o seu 'lado humano'. A derrota segundo o 'antigo testamento'. Tão cruel como natural. Depois da 'estrutura', fica o homem.

Mourinho Guardiola

Dois nomes para dividir a filosofia do futebol. O 'positivismo' da táctica pragmática. O 'existencialismo' das jogadas bonitas. Mourinho e Guardiola. Duas filosofias, dois "elementos químicos" que dividem dois estilos de jogo. Não é só a questão de um lado estar Messi, uma pulga disfarçada de ET em forma de jogador de futebol. É, sobretudo, uma questão de conceito. Por definição, entre a construção e a criatividade. Ambos, não se limitam a 'jogar' futebol. O Inter 'constrói' futebol, o cimento táctico liga os jogadores em campo. O Barcelona 'cria' futebol, a valia técnica faz os jogadores falarem uns com os outros em campo. Para o Inter, a táctica é uma 'causa'. Para o Barça, a táctica é uma 'consequência'.

Partindo de locais diferentes, no fim, ambos podem ter razão. O futebol admite todas as filosofias. No registo, eterniza os resultados. Na memória, perpetua as emoções. Se o Inter lê a mente, o Barça toca os corações.

Nani e o Destino

Antes da bola, um jogador vale muito pelas sensações que transmite. É a força e o culto da imagem. Nani não tem o starsystem de Ronaldo mas pisa a mesma relva em Old Traford. No mesmo espaço, o esquerdo.

Ao longo da carreira começou por parecer o menino tímido do futebol de rua que chegou assustado aos grandes estádios. Ganhou confiança a cada boa jogada (finta, arranque) que fazia. Acendia e apagava-se. Fez-se "homenzinho", como um dia disse Paulo Bento. Deu 'corpo' ao seu jogo, lapidou a imagem e rumou a Manchester. E há noites em que tudo parece possível.

No glamour da Champions, dois golos estilo 'CR', a pirueta nos festejos. A perfeição é possível. Faltava o pormenor de, no outro lado, estar uma equipa alemã. Uma casta que mesmo a perder 3-0, com o estádio a cair-lhes em cima da cabeça, nunca pode ser dada como 'morta'. E não estava. 3-2 e o 'teatro dos sonhos' inverte-se. Nani escureceu o olhar. Futebol-força escreve-se em alemão. O jogo de uma vida fora traído pelo destino. Fica a memória das emoções. Tudo o resto, esqueçam.