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Luís Freitas Lobo

As 'coreografias' do futebol

Benfica, a explosão do golo no caminho para o título

Paulo Novais/EPA

Nasceu um novo ciclo no futebol português? Descodificando a explosão do 'novo' Benfica e 'quebra' do velho FC Porto. Causas e efeitos.

Luís Freitas Lobo (www.expresso.pt)

No mesmo dia em que perdeu, matematicamente, qualquer possibilidade de discutir o título desta época, o FC Porto recebeu a taça de campeão da temporada passada. O futebol português vive muito destas 'realidades difusas'. Parece transformar-se de um momento para o outro. A 'nuvem cinzenta' que pairava por cima da entrega do troféu a Bruno Alves nasce de 'outro tempo', o actual, diferente daquele onde caminhava outro tipo de jogadores de azul-e-branco. Num ano muita coisa muda. Nos dois sentidos.

O renascimento, em campo, deste novo Benfica tem uma origem clara: o seu treinador, Jorge Jesus. Respeitou os conceitos básicos para fazer uma boa equipa: uma boa ideia de jogo e jogadores inteligentes para a interpretar. Argumento (táctica) e representação (acção dos jogadores) sem o onze revelar um casting muito diferente em relação à época passada. A diferença esteve na 'adequação' táctica. Uma ideologia de jogo que entendeu os jogadores e a cultura de clube adormecida.

David Luiz (recolocado na sua 'casa táctica' de defesa-central), Di María (de rebelde individualista a rebelde com causa no um-para-um), Aimar (fisicamente gerido e protegido respeitando a sua importância-chave no jogo), Cardozo (regressado ao lugar de nº 9 referência, apoio e remate, mas com companhia por perto), Ruben Amorim (bisturi táctico fundamental para jogos específicos) ou, até, Luisão (supradimensionado para chefe do exército defensivo) e Carlos Martins (temperamentalmente domado). Novas caras, Ramires (o 'etíope' incansável), Javi Garcia (a 'âncora' que, atrás, mantém a equipa com os pés presos à relva) e Saviola (o 'coelho' a mais que aparece e desaparece na chamada 'zona de ninguém', o célebre espaço entrelinhas). Entendidos os intérpretes, a mudança da 'coreografia': do 4x4x2 clássico (longo e sem elos de ligação) ao 4x1x3x2 (sempre em permanentes conexões de uma área à outra).

A quebra do FC Porto tem causas múltiplas. Ao contrário do êxito encarnado que tem um progenitor claro no treinador, o seu fracasso não pode seguir a mesma lógica simplista. Na 'quarta reconstrução', Jesualdo Ferreira não teve (e/ou não soube) manejar os novos 'componentes químicos' (leia-se jogadores) para congeminar a fórmula certa de manter o laboratório portista em ebulição. Quis manter a mesma coreografia táctica (4x3x3), desconfiou do 4x4x2 e acabou preso nesta armadilha. A 'bomba-Jesus' teve detonação fragmentada e muitos dos seus estilhaços caíram mesmo no centro do universo portista. A maior competência táctica (e, claro, os melhores actores) fez a diferença global. De excelentes jogadores, o FC Porto passou a ter alguns jogadores 'interessantes'. Não é a mesma coisa.

Falcão revelou-se um 'predador do golo', mas é o tipo de avançado que só cresce à medida que a bola se aproxima da área. Nos anteriores projectos de Jesualdo existiu sempre outro tipo de avançado no centro do ataque. Mais do que esse avançado crescer quando a bola se aproximava dele, era o jogo que, nessas alturas, ganhava outra dimensão. Ou seja, o jogo passou a colocar perguntas diferentes exigindo respostas... diferentes. Jesualdo (perante realidades distintas) deu as mesmas. E perdeu. Uma queda acentuada sem o jogador que, fugindo às perguntas do jogo, consegue, muitas vezes (em jogadas individuais) falando tacticamente sozinho, fugir às questões tácticas colectivas. Hulk, o 'disfarce perfeito'.

Jesus sente que tem o campeonato conquistado. Desde há várias jornadas que já mais ninguém o pode ganhar. Só ele o pode perder. Quando Luisão estiver a receber a taça de campeão desta época daqui a um ano, o grande desafio 'encarnado' é, quando isso suceder, a realidade não ser muito diferente da actual. Será a certeza de que o futebol português entrou mesmo num 'novo ciclo' e não apenas numa outra 'realidade difusa' do momento.

O segredo 'verde'

A escolha de um treinador obedece a vários factores. Depende do que se pretende, das especificidades de cada realidade, dos limites financeiros. É a chamada 'política desportiva' que varia de clube para clube. Um processo que, no final, desenha o chamado 'perfil' a buscar.

Durante semanas, desfilaram vários candidatos ao banco do Sporting. Entre eles cruzaram-se diferentes 'perfis'. O eleito é Paulo Sérgio, membro destacado da 'segunda linha' de treinadores portugueses. Aquela que mesmo buscando um estilo 'moderno', na pose e discurso, não renega as raízes do balneário e se percebe poder saltar para a elite.

É difícil dizer se chega na 'hora certa' a Alvalade. A seu favor, ao contrário de Carvalhal, chega num trajecto de ascensão na carreira. Outra coisa é descodificar a realidade do actual 'universo leonino'. A sua competência, mais do que pelos resultados ('normais' para a dimensão dos clubes por onde passou) pode-se medir sobretudo pelos sinais de personalidade (no plano humano, balneário, e desportivo, táctica) dados nas anteriores equipas que treinou. A dimensão leonina coloca, porém, outras exigências.

O perigo que se corre actualmente no futebol português é o de os melhores treinadores passarem a ser aqueles que, pela sua competência, estilo e carácter, quase que se tornam maiores (ou mais influentes) do que a própria 'estrutura' que os recebe. Foi um pouco o que fez Jesus no Benfica.

Será perigoso fazer comparações, mas, neste momento, olhando o que é o entorno da equipa leonina (balneário e gabinetes) essa também parece ser a única forma de Paulo Sérgio vencer este 'desafio verde'. Antes de derrotar outras equipas, terá de vencer por dentro. Isto é, ser capaz de se tornar maior (mais influente) do que a 'estrutura' que o rodeia para nunca depender dela. No dia em que isso acontecer, será como treinar sobre um 'alçapão'.

O triunfo do drama

Pode-se acreditar quando diz que não se sente feliz no futebol italiano. Depois de Inglaterra, onde as emoções (como o jogo) correm soltas, Itália é uma espécie de cárcere emocional futebolística. Esse lado dramático do jogo é, no entanto, a face mais fiel do seu futebol: o estilo Mourinho. A táctica como moldura e mordaça de uma equipa que ambiciona partir os corações dos adeptos do futebol romântico.

Messi entre três adversários. Mais do que uma marcação individual, uma marcação 'tridimensional' no espaço por onde ele se movia. Aprisionado o 'mágico', partiu-se para outra tarefa: aprisionar o 'cérebro', leia-se Xavi. Tirar-lhe espaço significou tirar-lhe tempo para pensar.

Depois, a segunda parte do plano, com as suas 'locomotivas' em velocidade. Três-quatro passes e a bola logo perto da baliza, num trajecto no qual o Barcelona prefere fazer com 13 ou 14. Conceitos diferentes por entre os quais o dramatismo de Mourinho e a atmosfera clássica do futebol italiano fura, com uma frieza insensível, o jogo mais tecnicista que a outra equipa possa apresentar. S. Siro não é para românticos. Talvez o Nou Camp.

O perfil do intruso

Por ente os dois 'monstros tradicionais' do nosso futebol emergiu o novo Braga. Mas encontrar um candidato não oficial (isto é, fora da nomenclatura clássica do futebol português) não significa por si só um sinal de evolução competitiva do nosso campeonato. Em geral é sobretudo consequência das fendas que se abrem na força e organização dos grandes. O Braga de Domingos (só possível porque antes existiram Jesualdo e Jesus) apresenta o chamado 'futebol realista', aquele que não levanta das cadeiras adeptos imparciais, mas conduz a lugares sempre seguros a sua equipa e seus seguidores. Fora do relvado é uma realidade sustentada numa gestão moderna (astuta nos novos caminhos do 'futebol dos empresários' e seus negócios) que, ciclicamente, foi gerando boas equipas. Uma realidade que se reflecte, depois, dentro do relvado. Perceber os cambiantes desta outra 'realidade difusa' será decisivo para o Braga manter-se como intruso da nomenclatura. Até, um dia, fazer mesmo parte dela por estatuto.

Texto publicado na edição do Expresso de 24 de Abril de 2010