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Fernando Madrinha

Ter ou não ter submarinos

Fernando Madrinha (www.expresso.pt)

Num país "em que se criou a noção de que todos sabem de tudo", como observava por estes dias o almirante Melo Gomes, chefe de Estado-Maior da Armada, qualquer um pode dizer que Portugal não precisa de submarinos para nada, ou que necessita deles como de pão para a boca. Quanto a mim, não sei. Mas parece-me razoável o que afirma o CEMA: de nada serve conhecermos os nossos recursos marinhos se não tivermos os meios para controlar a gigantesca área marítima sob jurisdição portuguesa e a capacidade submarina é parte determinante de uma Marinha equilibrada. Aliás, e isto já não disse Melo Gomes, a vertente submarina da Armada não nasceu com a encomenda de Portas e Durão: tivemo-la durante meio século, sem que a sua existência fosse posta em causa do ponto de vista estratégico.

Pode-se discutir se os submarinos eram ou não uma prioridade na altura em que foi decidida a sua compra, perante outras necessidades das Forças Armadas, da Marinha e do país. Pode-se discutir se os queríamos franceses ou alemães, duas ou três unidades, com ou sem corrupção pelo meio. Pode-se discutir se Portugal não terá mais mar do que barriga, isto é, se alguma vez possuirá os meios para controlar, fiscalizar e explorar devidamente as águas à sua guarda. Pode-se até discutir se o país deve ter Forças Armadas, dúvida que certa esquerda alimenta e que colhe apoios em alguns sectores. Mas aproveitar os sinais de corrupção na compra dos submarinos para lhes negar utilidade é talvez excessivo, olhando o mar à nossa volta e o tanto que se diz sobre a necessidade de nos voltarmos de novo para ele.

O caso que aí está é de outra natureza. E é um caso porque reforça a suspeita de que em qualquer negócio do Estado há sempre quem aproveite para meter dinheiro ao bolso. Essa miséria moral endémica, aliada a uma Justiça incapaz de cumprir o seu papel e que alastra a todos os níveis de decisão, comprometendo muitas vezes decisores políticos, é a doença mais grave deste regime que se desacredita processo após processo, sem que ninguém pague por eles.

Perante o que já se sabe e o muito que se suspeita, de novo com polícias estrangeiras no circuito, todas as iniciativas são boas para se apurar o que ocorreu, inclusive as responsabilidades políticas de quem, por acção ou omissão, possa ter lesado os interesses do Estado. E mal se perceberia que um Parlamento tão lesto a promover inquéritos de duvidosa eficácia sobre a liberdade de expressão se colocasse na margem da indiferença perante os indícios de um escândalo com as proporções que este apresenta.

Manda quem pode

No dia em que a TAP apresentou prejuízos de três milhões e meio de euros, uns trocos comparado com os 280 milhões do ano passado, ficámos a saber quanto custou a greve que os pilotos não fizeram na semana da Páscoa: 1,8% de aumento nos seus salários e mais quatro milhões de euros em prémios de produtividade para o ano em curso. O presidente da companhia rejubilou com o acordo, desvalorizando os novos custos e explicando que a paralisação de seis dias com que os pilotos tinham ameaçado custaria não quatro nem oito milhões, mas 30 milhões de euros. A TAP fez, portanto, um bom negócio.

Se os pilotos quiserem aumentos similares no próximo ano e a administração começar por resistir, já sabem o que fazer: marcam uma greve de seis dias para a semana da Páscoa. Caso pretendam aumentos e prémios superiores, é marcarem duas semanas de greve. A administração fará contas aos prejuízos (nesse caso talvez uns 60 milhões) e concluirá que perde menos se arranjar dez ou 12 milhões para calar os grevistas. É verdade que a TAP está em falência técnica, que o Governo quer dificultar o acesso dos desempregados ao subsídio de desemprego, que o país se encontra à beira da bancarrota, que a miséria grassa entre reformados que nunca poderão fazer uma greve, que um milhão de pessoas vai ficar sem médico de família, que só o prémio de gestão do presidente da EDP daria para manter um SAP a funcionar em pleno durante vários anos, mas isso que importa? Manda quem pode. E na TAP mandam os pilotos, como sabemos há muito.

Curioso é que isto aconteça depois de o Governo ter dado orientações às empresas participadas pelo Estado para congelarem vencimentos e prémios de gestão. Não temos de que nos admirar quando vemos bandeiras espanholas desfraldadas às centenas nas ruas de Valença. Por mais que elas nos envergonhem.

Sócrates e o "Público"

José Sócrates assinou 21 projectos de construção na Guarda - cada um mais infeliz do que o outro - já depois de ser deputado em exclusividade de funções, segundo o "Público". O primeiro-ministro reagiu de imediato, esclarecendo que tais projectos foram elaborados gratuitamente a pedido de amigos, não violando, por isso, o regime de exclusividade. Deu a sua explicação dos factos, que cada um lerá como entender, mas não desmentiu os factos em si. Não se justifica, por isso, o remoque com que procura descredibilizar o "Público". Sobretudo quando o jornal, segundo afirma, pediu esclarecimentos ao seu gabinete e esperou por eles em vão. Com tanta experiência acumulada em litígios com os media, Sócrates ainda não se convenceu de que nem sempre a melhor defesa é o ataque.

Texto publicado na edição do Expresso de 10 de Abril de 2010