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Fernando Madrinha

Primeiros passos

Fernando Madrinha (www.expresso.pt)

Pedro Passos Coelho inicia o mandato com as mais altas expectativas do seu partido, o que é bom para começar, mas pode tornar-se um problema, dada a pressa que o PSD tem de chegar ao poder. Pelo contrário, parte com baixas expectativas na sociedade e entre os seus potenciais eleitores, o que é um trunfo. De quem pouco se espera, por desconhecimento ou pura descrença, recebem-se com mais agrado quaisquer sinais positivos. E tanto o discurso de encerramento do Congresso como a entrevista a Miguel Sousa Tavares, na SIC, revelaram um líder que se esforça por apresentar um pensamento estruturado, que prefere combater com ideias a esgrimir insultos, que denota serenidade e seriedade na argumentação que produz, que corre os riscos de apresentar propostas e não se limita a criticar as dos outros. Se não há uma segunda oportunidade para causar uma primeira boa impressão, o novo líder do PSD soube aproveitar a sua.

Estes passos de apresentação são importantes porque, fora do PSD, Passos Coelho é um quase desconhecido. Para muitos ainda é o ex-líder da JSD que deixou de estudar para ir para a política. Estamos perante alguém que chega ao topo de um partido de poder em que milita há 30 anos sem nunca ter participado num Governo, caso raro ou nunca visto, se descontarmos os fundadores do regime. E que também não se distinguiu publicamente na sua profissão, que, aliás, exercia numa empresa de um seu correligionário e suposto mentor, Ângelo Correia.

Em suma, estamos perante alguém sem lastro político que o recomende especialmente, fora do partido que, literalmente, o viu crescer. Mas alguém que, por essa mesma razão, também não tem um passado que o comprometa e pelo qual precise de responder. Tudo o que vier a ser está nas suas mãos e na arte que demonstrar para transmitir e receber confiança, já que a pose - e ele tem-na em abundância - não é tudo.

Gestores e polícias

O que tem a PSP a ver com os prémios milionários dos gestores das empresas públicas e participadas pelo Estado? Quase nada. Mas há um ponto em comum: os prémios dos gestores são quantificados de acordo com objectivos previamente definidos; as avaliações dos polícias, as suas carreiras e vencimentos também são determinados por objectivos que o comando nacional define previamente. Polícia que não aplique um certo número de multas, que não prenda um certo número de meliantes, que não apreenda uma dada quantidade de viaturas, terá, no fim do ano, uma avaliação negativa.

A mensagem é clara. No caso dos gestores, toca a trabalhar para o lucro, ainda que isso signifique esbulhar os clientes em empresas de bens e serviços que são verdadeiros monopólios, ou em sectores, como o dos combustíveis, onde a concorrência é uma anedota. No caso dos polícias, toca a prender e a multar sem contemplações. Existe a lei, que sempre é um travão, e a convicção geral de que a maioria dos homens e mulheres da PSP são gente sensata. Mas, pela lógica do seu comando, polícias que não se cruzem com ladrões estão condenados a não sair da cepa torta.

Os sistemas de avaliação de desempenho com objectivos quantificados e em prazos cada vez mais curtos são um dos dogmas da nova gestão. Mas foi esta filosofia que esteve na base da crise financeira: objectivos fabulosos para lucros fabulosos dos accionistas, com prémios fabulosos para os gestores e quadros, os quais, para os alcançarem, se dispunham a fazer o que fosse preciso, inclusive vigarizar fabulosamente os seus clientes. Deu no que deu. E esta ideia de aplicar a mesma doutrina a instituições como a polícia também não é feliz. Há certamente outros caminhos para se conseguir mais empenho e eficácia dos agentes no combate ao crime. Este é apenas o caminho mais fácil. E, claro, o mais rendoso, pois o Estado deve querer compensar-se, em 2010, da quebra de receitas em multas no ano passado.

É assim que se governa

Em 2004, a Assembleia da República aprovou por unanimidade a criação de um Centro para a Promoção e Valorização dos Tapetes de Arraiolos. O objectivo último era a certificação do produto, com a atribuição de um selo de garantia que o protegesse da contrafacção. Após dois anos a matutar, a comissão instaladora do centro lá apresentou um projecto de estatutos. Enviou-o para o Ministério do Trabalho em 2004. Passados mais seis-anos-seis, o dito projecto continua à espera de um carimbo, de uma assinatura, ou apenas de que alguém se recorde de qual foi a gaveta em que o guardou. De vez em quando, o presidente da Câmara de Arraiolos, Jerónimo Loios, manda cartas ao primeiro-ministro e ao ministro do Trabalho a protestar. O chefe de gabinete do primeiro responde invariavelmente que o assunto está no ministério da tutela. O chefe de gabinete do segundo responde invariavelmente que o assunto não está esquecido. E que será objecto da melhor atenção. Em desespero e sem saber já o que fazer, o autarca decidiu contar à TSF esta história exemplar de como se governa em Portugal. São estes gabinetes ministeriais que o país paga a peso de ouro. Um dia, ainda aparece um empresário chinês mais expedito a certificar como tapetes de Arraiolos as imitações que fabrica em Guangdong. Mas isso que importa aos políticos e aos burocratas da Praça de Londres, que, ao contrário das tecedeiras da vila alentejana, têm o emprego e o vencimento garantidos?

Texto publicado na edição do Expresso de 17 de Abril de 2010