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Economia Real

PME? Não, obrigado

Luís Todo Bom* (www.expresso.pt)

A bibliografia sobre as PME - Pequenas e Médias Empresas é unânime em referir como ponto forte mais relevante destas organizações a flexibilidade em termos de produtos, serviços, tecnologias, mercados e clientes; e como ponto fraco, os constrangimentos em recursos humanos, tecnológicos, financeiros e nos "recursos do conhecimento".

Assim, nas fases de crescimento económico, as PME criam emprego, com rapidez e menores níveis de investimento, mas nas fases de estagnação e de decrescimento, destroem emprego, com igual rapidez.

Em países com sistemas de justiça eficientes, a mortalidade das PME tem taxas equivalentes às da sua natalidade, mesmo em períodos de baixo crescimento.

As economias sólidas apoiam-se em grandes empresas (GE) e não em PME. As PME são organizações complementares no preenchimento da malha industrial, ou transitórias no seu processo de crescimento para GE, onde ganham capacidades e recursos para poderem ser competitivas no mercado global.

Ninguém de bom senso acredita que é possível vencer um campeonato de futebol com jogadores de 10 anos de idade, pequenos, flexíveis e habilidosos, que por vezes fintam os adultos, mas sem a estatura necessária para garantirem a vitória.

Este deslumbramento e obsessão nacional pelas PME é pouco saudável, assim como as declarações superficiais de que é necessário apoiar genericamente as PME.

Infelizmente, os estudos que têm sido produzidos e divulgados, incluindo os oriundos das associações empresarias, são de uma pobreza intelectual confrangedora em termos do seu suporte teórico.

Uma das suas fragilidades reside na ausência de análise matricial destas organizações em termos de tecnologias/mercados, de que resultariam recomendações de acções estruturantes diferenciadas.

Com o agravamento de a maioria das PME desenvolver a sua actividade com tecnologias maduras e produtos de reduzida incorporação de conhecimento, o que torna mais difícil um programa de intervenção dirigido aos diferentes mercados.

Acreditar que, na fase actual dos mercados, as PME portuguesas têm recursos suficientes, mesmo com apoios públicos, para desenvolverem com sucesso processos de investimento internacionais é pura ficção. Quando muito, poderão incrementar, marginalmente, as suas exportações.

Em contrapartida, não se conhece nenhum programa, com a intervenção obrigatória das sociedades de capital de risco com fundos públicos, desenhado para o apoio às acções de fusão, concentração e reorganização sectorial de PME no sentido do seu crescimento e incremento de competitividade.

Os programas que se conhece não fomentam a selecção e crescimento das melhores PME e limitam-se a lançar mais dinheiro sobre os problemas.

Estes manter-se-ão, ficaremos, unicamente, com menos dinheiro, ou seja, mais pobres.

*Professor associado convidado do ISCTE