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Economia Real

O autismo e as agências de rating

Luís Mira Amaral (www.expresso.pt) *

O Manifesto sobre a Energia que eu e um conjunto de personalidades com grande competência energética, eléctrica e económica subscreveram veio naturalmente contestar o pensamento único, afrontar o poderoso lóbi eólico e pôr em causa que Portugal liderasse o mundo (ou que estivesse na linha da frente...)

O Governo e o seu stakeholder para esta área de negócios, a APREN, reagiram como se esperava. As brigadas de minas e armadilhas fizeram-nos os ataques e insultos pessoais que temos vindo a sofrer...

O Governo acenou com o papão nuclear para tentar condicionar a discussão. Também o dr. Salazar usava o papão do comunismo para tentar evitar a discussão sobre os problemas do país... Assim vai a democracia portuguesa...

O Manifesto não era contra as renováveis, era contra os excessos nas eólicas e fotovoltaicas. Considero até que a biomassa e os biocombustíveis têm sido o parente pobre da política (?) energética do Governo. Tanto é assim que os homens da biomassa, não se revendo na APREN, tiveram que fazer uma nova associação.

Um conjunto de jornalistas, alguns dos quais confessaram não saber nada de energia, vieram acusar-nos de desonestidade intelectual, chegando mesmo alguns a citar frases do Manifesto que não existiam no texto... Outros, que passam por especialistas e que são consultores nas renováveis, também vieram contestar, dizendo até disparates técnicos chocantes.

Também aqui nestas colunas, Costa e Silva, gestor de um grupo que tem interesses económicos na eólica, veio naturalmente criticar o Manifesto. Em nome da transparência, conviria não ter omitido essa ligação... A sua ideia de contrato com o futuro, pretendendo legitimar o fundamentalismo ecotópico e a tentativa de queimar etapas no curto prazo, é extremamente perigosa. Já vimos o que isto deu com os 'amanhãs que cantam' dos comunistas... Tentarem alguns iluminados impor um pensamento único através do Estado e de políticas de forte subsidiação em permanência leva sempre a grande desperdício de recursos e a enormes irracionalidades económicas. É preciso lembrar que para chegar ao longo prazo temos que ultrapassar uma sucessão de curtos prazos. Além disso, como dizia Keynes, no longo prazo, estamos todos mortos... Se isto se chama querer que o tempo volte para trás, teremos que rever as mais elementares noções de bom senso e pragmatismo económico...

Também o lóbi eólico gosta de dizer que nós, "impuros" mortais, fazemos negócios. Eles não, o que é verdade, pois não é negócio em economia de mercado o estarem sentados à mesa do consumidor de electricidade, através de um monopólio legal que nos obriga a pagar-lhes sempre a mercadoria a preços políticos elevados, mesmo quando não precisamos dela...

Também a ideia da linha da frente é outro vector do pensamento único. Como é que um país com escassas possibilidades de vencer o desenvolvimento tecnológico e industrial nas eólicas e fotovoltaicas quer liderar o mundo ? Mais uma fantasia...

*Luís Mira Amaral

Prof. Economia e Gestão IST

competitividade2@sapo.pt

Texto publicado na edição do Expresso de 24 de Abril de 2010