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Daniel Oliveira

Somos o que se segue

Daniel Oliveira (www.expresso.pt)

Instalou-se a ideia: depois da Grécia, Portugal será o próximo. É uma profecia que se alimenta a si própria e o que vem aí é pior do que se possa imaginar. O ataque especulativo à nossa dívida, com as notícias que têm saído, será feroz. As próximas semanas adivinham-se trágicas. E, sendo a situação de facto menos grave do que a grega, pode vir a tornar-se muito pior. Porque depois do balão de oxigénio dado à Grécia é de prever que os egoísmos europeus deixem cair Portugal. E que, na cegueira de quem só vê doentes e não dá pela epidemia, só voltem a acordar quando a doença atingir a Espanha ou a Itália.

O PEC, que já foi aprovado e cuja alteração só criaria ainda mais pânico nos mercados, pouco ou nada pode fazer contra esta situação. Todas as medidas serão inúteis perante este ataque em que qualquer medida já é indiferente. Não há amputação que trave a gangrena sem matar o doente. Só há uma solução: a Europa perceber, de uma vez por todas, que quando se ataca uma economia do euro se está a atacar o próprio euro. Não há como isolar o doente no meio desta camarata. Mostrar, num meio de um ataque destas dimensões, que está cada um por si apenas serve para sacrificar, um a um, os mais frágeis.

Talvez seja altura de a Europa perceber que não é possível ter uma moeda única sem ter um governo económico europeu. Ou seja, sem uma união política. E que não podemos ser meigos com os especuladores que põem as nossas economias em perigo: contra-atacar quem nos ataca. Sem pedir desculpas. Só o peso da Europa o pode conseguir. Cada país, entregue a si próprio, será presa fácil para os lobos que deixaram, no último ano, o mundo de pantanas.

Efeito borboleta

Do mesmo país que ficou em cacos com a crise financeira veio uma nuvem que quase paralisou a Europa. A coisa assusta pela pequenez da causa e a grandeza das consequências. Ligada em rede, a comunidade global pode dividir conhecimento, arte, tecnologia. Mas também as desgraças. As cinzas islandesas podiam ter falido empresas em Cancún ou no Algarve, assim como as práticas irresponsáveis dos bancos americanos rebentaram com a economia mundial. Nada pode suster a sucessão de acontecimentos quando cai a primeira peça da fileira de dominós em que vivemos. Numa rede cheia de nós, a sucessão de acontecimentos provocada por um pequeno episódio torna os seus efeitos imprevisíveis e incontroláveis pela pequenez humana. E é isto, de que os efeitos das cinzas islandesas são apenas um exemplo, que cria, nas sociedades modernas, uma ansiedade colectiva permanente.

Como não queremos nem devemos querer desistir da globalização, temos de fazer algumas coisas para dar alguma segurança à nossa frágil existência: não deixar que nenhuma tecnologia domine todos os aspectos da nossa vida. Não podemos depender exclusivamente dos aviões, do petróleo, dos computadores, do jogo na bolsa, ou até dos transportes. A imprevisibilidade dos tempos modernos, que resulta da globalização e da tecnologia, obriga a não abandonarmos totalmente os instrumentos dos velhos tempos. Aqueles que sobrevivem sempre que o castelo de cartas em que vivemos ameaça desmoronar. Nem sequer podemos dispensar a proximidade física. Porque não está escrito em lado nenhum que o mundo será sempre tão pequeno como agora nos parece.

Texto publicado na edição do Expresso de 24 de Abril de 2010