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Daniel Oliveira

Sacrifícios, disse ele

Daniel Oliveira (www.expresso.pt)

No site do Compromisso Portugal podem ler-se estas sábias palavras de António Mexia: "Terão que se assumir sacrifícios no curto prazo por forma a obter vantagens no médio prazo". Soubemos esta semana que Mexia deu o seu contributo: recebeu, o ano passado, 3,3 milhões de euros. O mesmo que 500 trabalhadores com o salário mínimo nacional e que há uns meses ouviram as associações patronais explicar que um aumento de vinte euros iria destruir as nossas empresas. Fosse Mexia americano e estaria entre os 200 mais bem pagos. Sorte a nossa, a de ter um gestor deste gabarito. De ter, aliás, imensos gestores de topo. Os nossos ganham 32 vezes mais do que os mais mal pagos da sua empresa. Os incompetentes alemães ficam-se por dez vezes mais. O meu único receio é que a Europa se dê conta disto e haja uma fuga de cérebros neste país.

O ordenado de Mexia é pago pelos consumidores com a concordância do accionista Estado, o maior da EDP. E, recorde-se, o preço da electricidade doméstica em Portugal é, em termos absolutos, superior ao da média comunitária. Na factura estão os prémios de Mexia.

Se a bolsa de António Mexia está cheia, é um pouco mais pobre a sua coerência. Liberal convicto, o seu currículo fez-se quase exclusivamente no Estado ou em empresas participadas pelo Estado. Defensor intransigente da meritocracia, contratou para assessor jurídico da EDP o seu ex-primeiro-ministro, então no desemprego, Pedro Santana Lopes. Apologista dos sacrifícios dos portugueses - recorde-se que o seu patusco grupo liberal foi o primeiro a defender, logo em 2006, o congelamento dos salários dos funcionários públicos -, não se pode dizer que seja muito dado ao estoicismo.

São estes homens, transformados pela imprensa em oráculos da nação, que nos dão responsáveis lições de competitividade, mérito e contenção para vencer as adversidades. Falam de cátedra. Mas não sabem do que falam. Soubessem, e talvez medissem as palavras.

Pare, escute, olhe

Passeando ao lado do rio Tua, no lugar onde nascerá uma barragem, José Sócrates diz: "agora só falta aqui é cimento". A frase é um tratado sobre o nosso subdesenvolvimento. E é disso mesmo que trata "Pare, escute, olhe", um documentário de Jorge Pelicano sobre a destruição lenta e premeditada da centenária linha do Tua.

O filme, que estreou esta semana, diz-nos muito sobre o que somos. Diz-nos do abandono. A desertificação do interior não resultou de uma inevitabilidade. Resultou da incompetência de um Estado incapaz de planear o futuro sem megalomania. Diz-nos de uma elite mesquinha e gananciosa. Lá vemos o deslumbramento com as grandes obras enquanto a incúria destrói o que já existe. Diz-nos de um povo tão habituado a ser ignorado que nem pensa que pode ser diferente. Quase só velhos, deixados para trás pela cegueira dos patos-bravos.

"Pare, escute, olhe" é sobre um país falhado. Não foi a crise económica. Nem o endividamento. Nem o défice. Foram elites de vistas curtas que desbarataram todas as oportunidades. Sai-se desanimado da sala de cinema. Quando quebraremos este ciclo interminável de atraso e ignorância?

Texto publicado na edição do Expresso de 10 de Abril de 2010