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Expresso

Daniel Oliveira

Rankings e xanax

Esta semana evite a companhia de professores. Falar com qualquer um deles pode deixá-lo em mau estado. Vivem, nos dias que correm, em depressão colectiva. A sucessão de reformas, contra-reformas e contra-contra-reformas, a destruição do que se foi fazendo de bom - do ensino especial ao ensino artístico -, a incompetência desta equipa ministerial e o linchamento público de uma classe inteira tem os resultados à vista: as aulas recomeçam com professores tão motivados como um vegetariano perante um bife na pedra.

Sabem que os espera apenas uma novidade: a avaliação do seu desempenho. E é, ao que parece, tudo o que interessa a toda a gente: a avaliação dos professores, a avaliação dos alunos, a avaliação das escolas, a avaliação do sistema educativo português.

Tenho uma coisa um pouco fora do comum para dizer sobre o assunto: a escola serve para ensinar e aprender. Se isto falha, os exames, as avaliações e os "rankings" são irrelevantes. Talvez não fosse má ideia, enquanto se avaliam os professores, dar-lhes tempo para eles fazerem aquilo para que lhes pagamos em vez de os soterrar em burocracia. Enquanto se exigem mais e mais exames, garantir que os miúdos aprendem com algum gosto qualquer coisa entre cada um deles.

Enquanto se fazem "rankings", conseguir que a escola seja um lugar de onde não se quer fugir. E enquanto se culpam os professores pelo atraso cultural do país, perder um segundo a ouvir o que eles têm para dizer. Agora que já os deixámos agarrados ao Xanax, acham que é possível gastar algumas energias a dar-lhes razões para gostarem do que fazem? Se não for por melhor razão, só para desanuviar o ambiente nos edifícios onde os nossos filhos passam uma boa parte do dia.

A América dos valores

A campanha americana parecia ir no bom caminho. Dois candidatos consistentes na disputa democrata. Um candidato republicano com mais neurónios no activo do que o seu antecessor. Melhor: os dois nomeados têm alguma noção do que se passa nos arredores dos Estados Unidos. Até que apareceu Sarah Palin e os americanos voltaram à cepa torta. Agora o debate é sobre a gravidez da filha de Palin, o seu filho com síndrome de Down, as posições radicais da candidata sobre o aborto.

Não é por ser mulher, como se viu com Hillary. É por não ter mais nada para dizer. Restam as suas novelas familiares e, valha-nos Deus, os seus 'valores'. São os mesmos 'valores' que imobilizaram Bill Clinton porque a oposição andava excitada com os seus segredos de alcova.

Que elegeram o mais inepto dos presidentes. Que fizeram do criacionismo matéria curricular, prometendo transportar os petizes da maior potência ocidental para a idade da pedra. Que enterraram os americanos num défice assombroso, numa crise económica com efeitos colaterais em todo o mundo, numa guerra desastrosa e numa perigosa crise de confiança. Deus nos livre da 'América dos valores', tão bem representada pelos psicodramas da insignificante senhora Palin. Esperemos que isto seja apenas um intervalo e que a política regresse dentro de momentos.

Daniel Oliveira