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Daniel Oliveira

Aprender com os americanos

Daniel Oliveira (www.expresso.pt)

Há meses que toda a gente sabe que o PS vai apoiar Manuel Alegre. Há tanto tempo como se percebe que o entusiasmo de José Sócrates pelo candidato é nulo. Dois factores vieram piorar ainda mais a situação. O primeiro: as críticas de Alegre ao PEC deixaram claro que este não tem qualquer intenção de cometer o erro de Soares há quatro anos - o de ser porta-voz do Governo na corrida a Belém. O segundo: depois de ter ajudado a lançar uma candidatura alternativa, na esperança que Fernando Nobre seja para Alegre o que Alegre foi para ele próprio, Mário Soares e a sua entourage terão feito pressão no partido para que o apoio acontecesse o mais tarde e o menos entusiasmado possível.

Mas, no estado em que as coisas estão, José Sócrates não se pode dar ao luxo de abrir uma frente interna de conflito com a ala esquerda do partido. Por isso, mesmo com a irritação de Lello e Canas, o apoio a Manuel Alegre resultará da constatação do óbvio: é o único candidato que o PS pode apoiar sem se arriscar a uma reedição da humilhação de há quatro anos.

Mas as próximas presidenciais não serão um confronto entre Cavaco e Sócrates. Nem sequer entre o PS e o PSD. Serão um confronto entre duas formas de ver o país. E, por arrasto, também um confronto entre o PS dos últimos seis anos e o PS que lhe quer suceder. Sócrates sabe disso e por isso resiste. Mas não tem alternativa. E, apesar de tudo, ninguém verá uma derrota de Manuel Alegre como uma derrota sua. Até porque nas fileiras do candidato estarão muitos críticos externos e internos do Governo. Pelo contrário, uma derrota da ala esquerda do partido poderia mostrar ao PS que não há alternativa a Sócrates. Um problema: e se Alegre vencesse? Sócrates irá apoiá-lo porque não acredita nessa possibilidade.

Falta de solidariedade

Os funcionários da Galp marcaram uma greve para a próxima semana. Duas exigências: aumento de 2,8 por cento e no mínimo de 55 euros e distribuição de lucros, como tem acontecido nos últimos cinco anos. A resposta da Administração foi negativa. "Não é possível distribuir resultados que não alcançámos", disse o CEO Ferreira de Oliveira. E a greve por aumentos demonstra "falta de solidariedade para com o futuro da empresa".

Apesar de, segundo a Administração, os lucros não permitirem uma distribuição de rendimentos (foram "só" de 237 milhões de euros), tal não impediu a empresa de dar prémios aos gestores pelos "resultados não alcançados". Mas o mais extraordinário é mesmo a acusação de falta de solidariedade. O mesmo Ferreira de Oliveira recebeu, em 2009, quase 1,6 milhões de euros, incluindo salários, PPR, prémios de desempenho e despesas de deslocação e renda de casa. É um dos gestores mais bem pagos do país. No total, os vinte gestores executivos e não-executivos embolsaram 6,2 milhões de euros, quase três por cento dos lucros da companhia. Quando trataram das suas remunerações não lhes ocorreu o dever de solidariedade e muito menos os interesses da empresa.

A Galp é apenas mais um exemplo da distribuição desigual de sacrifícios neste país. Mas o que mais indigna não chega a ser a forma como esta gente se faz pagar. É a audácia com que, depois de o fazer, ainda quer dar lições de ética empresarial aos seus trabalhadores.

Texto publicado na edição do Expresso de 17 de Abril de 2010