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Daniel Oliveira

Acima do bem e do mal

Daniel Oliveira (www.expresso.pt)

Nenhum rebanho se livra de ter as suas ovelhas tresmalhadas. Não é, por isso, a pedofilia que está em discussão. Apesar de ela poder abrir um debate entre os católicos sobre a castidade obrigatória, como propôs o padre Anselmo Borges. Debate que tem muitas armadilhas para quem procure em excesso causalidades forçadas. Mas o que se discute, ou que se deve discutir, é o papel activo da hierarquia no encobrimento de cada um dos casos. Não é apenas o silêncio. É uma política geral e premeditada para impedir que estas pessoas enfrentassem a justiça e que os casos se tornassem públicos. E nesta suspeita de encobrimento nem o Papa está de fora. Pelo contrário, parece estar bem no epicentro do terramoto.

Durante décadas a hierarquia da Igreja confrontou-se com a escolha entre a imagem de autoridade moral e a verdadeira autoridade moral. Entre a defesa do seu poder simbólico e a defesa dos mais fracos. Achando-se 'acima do bem e do mal', pôs o poder da instituição antes de todos os valores.

O mais grave é que esta mesma Igreja, tão benevolente com os seus, nunca hesitou em ser implacável com todos os que fujam aos seus ditames morais. E em tentar usar as leis do Estado para os impor. É isto que torna tão difícil ser compreensivo com tanto laxismo e desprezo pelo sofrimento das vítimas. E é esta mesma Igreja que, desde o Papa anterior, não perdoa nenhuma dissidência teológica. Perdoa com maior facilidade, ao que parece, crimes que provavelmente julga menores.

O cardeal José Saraiva Martins justificou as omissões: "É isso que acontece em todas as famílias. Não se lava a roupa suja em público". Nem a pedofilia é 'roupa suja' que se lava em casa nem o clero é uma "família" que vive à parte da sociedade. E este, muito mais do que a sexualidade dos seus padres, é o grande desafio que se põe à Igreja: como se adaptar às sociedades modernas onde o secretismo e a excepção perante a lei já não são toleráveis. E este desafio não é pequeno. Dele depende a sobrevivência do poder político e moral do Vaticano. Sabia bem a hierarquia o que estava em causa quando escondeu os pecados dos seus sacerdotes. Mas em sociedades livres há coisas que não se escondem por muito tempo. E em democracia ninguém está acima da lei, por mais poderosa que seja a sua 'família'. Aprenderá a Igreja viver com isto? E aprendendo, o que mudará na natureza do seu poder?

Em águas frias

A compra dos submarinos, incompreensível à luz de qualquer racionalidade política e financeira, parece esconder negócios menos claros. Prevê-se que os responsáveis - e entre eles, Paulo Portas, o que mais se empenhou nesta compra - comecem a sacudir a água do capote. Mas vêm tarde. Os submarinos tiveram o azar de passar por águas mais rigorosas do que as nossas. Com empresas alemãs no negócio e o nome do presidente da Comissão Europeia envolvido, o jornalismo de investigação e a justiça mais rápida e rigorosa da Europa fria poderão vir a causar sérios estragos na direita nacional. Sobretudo aquela que enche a boca com o rigor nas contas públicas e a necessidade de não vivermos acima das nossas possibilidades. Veremos como acaba. Mas no fim, ao pé disto, casos como o Freeport poderão vir a ser recordados, por comparação, como simpáticos mal entendidos.

Texto publicado na edição do Expresso de 2 de Abril de 2010