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Expresso

Joviana Benedito

Dependência Net (6)

Jogadora de "Spider Solitário", vulgo "Paciência"

Mimi acordou. Pela porta entreaberta do quarto viu uma réstea de luz que vinha do escritório. Foi lá pé ante pé.

- Avó, que fazes no computador às 3h da manhã?!

- Estou a jogar um joguinho enquanto o sono não vem.

Mimi voltou para a cama. Mas quando se levantou a avó estava a jogar outra vez ou ainda, não sabia.

- Avó, ainda estás a jogar?

- Apanhei o gosto a este jogo e quero conseguir fazê-lo na sua versão mais difícil e no mínimo de tempo.

- Estás numa competição contigo mesma?

- Estou, porque sem objectivos nem mesmo jogar "a Paciência" vale a pena.

Teresa vivia só e o tempo em casa parecia-lhe muito longo sobretudo no Inverno, em que os dias solares são curtos e nublados e o tempo frio e chuvoso. A TV fazia-lhe alguma companhia mas não a prendia por falta de interactividade que o seu espírito irrequieto reclamava.

Por um acaso da sorte teve o primeiro contacto com o computador numa acção que o M. C. levou a cabo num dos centros do Inatel. Como gostou da experiência pediu ao filho que lhe comprasse um computador e fez a seguir um curso de iniciação e entusiasmou-se. Receber e enviar e-mails era um passatempo que lhe agradava mas com o tempo tornou-se monótono.

Ouvia os netos falar em jogos online e um dia viu uma neta a jogar cartas.

Quando ficou sozinha abriu o Spider Solitário e viu que tinha três níveis de dificuldade: o fácil com um baralho, o médio com dois baralhos um de cada cor; e o difícil com quatro baralhos dois de cada cor.

Começou pelo fácil. Com muitas dificuldades ao princípio. Mas ela tinha paciência para fazer "A Paciência" e, sobretudo, queria ganhar o desafio a que se propusera: desafiar-se.

Em breve se tornou rápida de cabeça e de mão. Num ápice via as jogadas necessárias e com a mão manuseava o rato com perícia.

A seguir passou ao jogo de dificuldade média e pouco depois ao difícil. Mantinha o computador ligado todo o dia e toda a noite para aproveitar cada momento.

Passava horas a jogar.

Deu-se conta disso e escondeu o facto à neta. Convivia mal com a sua personagem de jogadora como convivera mal com a solidão e tinha uma nítida consciência de que estava a fazer um uso inadequado, compulsivo mesmo, do computador.

Ficou preocupada e prometeu a si própria que iria reduzir o tempo em frente ao PC.

Nikita comentou: a solução está dentro de ti!

Joviana Benedito

Profª. aposentada do Ensino Sec. e autora