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Clara Ferreira Alves

Plano de saúde Texas Style

Um plano de saúde para a América? "Sure, honey. mais batatas fritas?"

Clara Ferreira Alves (www.expresso.pt)

Estou sentada num restaurante onde cabem mil pessoas. Dois andares, toneladas de néon violáceo e cor de fogo, webcams com o trânsito. Sou a pessoa mais magra do restaurante. Não sou a mais baixa porque os criados de mesa que deslizam com bandejas de metal, discos gigantes carregados de costeletas com facas espetadas e molho a escorrer nos vales das montanhas de batatas fritas são todos incas, astecas, maias. Ajoujados pelo peso da comida, suando no calor tropical. Lá fora zero graus. O vento assobia nos canyons e arremete contra os vidros dos arranha-céus e quando paro - walk, don't walk - acho que cheguei à Antárctida e vou morrer como Shackleton.

Vou ser politicamente incorrecta, posso? Gelada no meio das focas e dos leões-marinhos, das otárias e das baleias. Estes bichos estão dentro do restaurante, a jantar costeletas e bifes e frangos fumados Texas Style. Brancos e negros, a maioria negros. Adoro vir aqui jantar. Não há turistas. Os subúrbios desembarcam dos SUVs por uma noite, encomendam cocktails raiados de azul e verde com palhinhas e chapelinhos chineses, e comem. E comem. A comida é tão barata e tão farta que os restos dariam para alimentar um pequeno país. Os incas e astecas. Isto é a América. Não a América que pede ostras e vinho branco e finge que é mediterrânica por 100 dólares a cabeça num dos lugares com velas, baldes de gelo e manteiga da Normandia. Aqui come-se. Um copo de cerveja leva meio litro e ninguém encomenda vinho tinto para desentupir as coronárias. Esta gente XXXL com fatos de nylon e brincos de falsos diamantes são americanos que curtem a comer.

Peço uma chávena de chili, uma entrada, e passo as ribs e a meia galinha corada. Só chili, honey? A simpatia, a cortesia, a absoluta falta de hostilidade na voz. Esta gente sempre com um sorriso. A vida não deve ser fácil para os imigrantes gratos pela chegada à terra da abundância; não se importam de carregar bandejas com um braço no ar, parecem bailarinos da ópera. O cenário é operático. Cavalos, cowboys e touros de bronze rodopiam num rodeo nas paredes iluminadas pelo néon que soletra BBQ Texas Style. Honey isto e honey aquilo, mel pinga das palavras; se vêem uma criança o sorriso alarga-se como se uma criança fosse um milagre da natureza. E vão logo buscar um pote de creme com uma cereja marasquino lá dentro, um brinde de açúcar. O chili custa quatro dólares e consigo comer um terço. É delicioso, acompanhado de natas e cornbread, bolo de milho em quadrados. Nos pratos não se vê um vestígio de verde ou vermelho. As saladas são inundadas de molho apimentado e gorduroso a camuflar os vegetais. Algures, ouve-se a voz rouca de BB King num blue.

Um casal de gordos felizes beija-se. Ela deve ter um 100 quilos, branca e ruiva, e ele uns 150, negro e com uns olhos de carvão. São belos, a seu modo. Uma versão à Robert Frank do beijo de Doisneau. Quando saem tomam o elevador. As escadas estão vazias, toda a gente acaba de comer e vai de elevador. Um andar. As sobremesas são taças com gelados fluorescentes e xarope de chocolate e caramelo e oreos e brownies esmagados e... vou dali direita ao Duane Reade comprar um antiácido. Os remédios são como a comida, king size.

A primeira vez que vim à América, há uns bons anos, fiquei a contemplar o tamanho do croissant. Nunca tinha visto um croissant do tamanho de uma bigorna. O estudo sociológico e antropológico desta civilização tem de começar pela comida, a dieta, como eles dizem. Agora, tudo rigorosamente tudo conta as calorias. A ideia de dieta de emagrecimento não é a redução da porção, é a substituição de açúcar por edulcorante e da gordura por fermentos. Non-fat, fat-free, sugar-free, sugarless. A comida é descrita, precedida de discurso. A Sontag devia ter escrito sobre a comida como metáfora. Caseiro, quente, cozinhado pela avó, caloroso, saboroso, adjectivos para enfeitar uma tarte de maçã (600 calorias) ou uma torrada com ovo e queijo derretido (590 calorias). Comida saudável, diz o cartaz. O meu chili tinha uma coroa de queijo derretido. Milhões de calorias.

O chefe inglês Jamie Oliver, que quer conquistar a América como todos os europeus, anda em cruzada a pregar a revolução culinária. No Estado da Virgínia foi apupado e encontrou crianças que nunca tinham visto um tomate e achavam que um tomate era uma batata. Jamie chorou de desespero e contou tudo na televisão, perante a emoção dos pivôs de cabelo fumado e lacado Texas Style. Um plano de saúde para os americanos? Milhões de dólares deitados fora, berra a direita. Deviam começar por ensinar e aprender como não comer assim, dizem os peritos magros. Somos uma cambada de gordos. Pois são. E a América deixaria de ser a América. Mais batatas fritas, honey? Sure, honey.

Texto publicado na edição do Expresso de 2 de Abril de 2010