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Clara Ferreira Alves

Os passos do homem tranquilo

Se aquilo que Passos Coelho diz é aquilo que vai fazer, então o cavaquismo acabou dentro do PSD.

Clara Ferreira Alves (www.expresso.pt)

É difícil não concordar com meia dúzia de coisas que Pedro Passos Coelho tem vindo a dizer. É difícil não concordar quando diz que todos os partidos têm usado o Estado e abusado do Estado para os seus negócios. E que ele quer retirar o Estado dos negócios. O Estado deve ser o regulador da economia, os reguladores devem ser independentes do Governo e o sistema de justiça deve ser refundado para melhor servir a democracia e o país. Quem não concorda com isto à luz dos escândalos e das revelações que têm atormentado e penalizado o Governo e o PS?

Quem não concorda que a reforma administrativa deve ser feita moralizando os gastos do Estado e corrigindo os desperdícios? Quem não concorda com a contenção salarial para escapar à sorte grega e quem não concorda com a integração num regime de voluntariado e de serviço à comunidade dos que recebem benefícios do Estado? Não se trata, parece-me, de punir os recipientes de subsídios de desemprego, ao qual têm direito, e das famílias com Rendimento Social de Inserção. Trata-se de devolver dignidade e espírito de pertença a gente abandonada à sorte que fica a ruminar a desgraça. Nada de errado em integrar uma população desocupada que pode ser útil e que pode, se demonstrar boa actividade, vir a ser reintegrada. O voluntariado em Portugal é visto como uma excentricidade e são poucas as pessoas que se oferecem para trabalhar nesse regime. É considerado uma actividade de ricos. Quem precisa de rendimentos de trabalho não pode abdicar do lazer para ir prestar serviço não remunerado, mas quando existe uma ideia mobilizadora como a do movimento para limpar Portugal, as pessoas respondem com empenho e civismo.

Até aqui, estamos todos de acordo, apesar de o Bloco de Esquerda achar a ideia ofensiva. O problema está em como prescindir do Estado para assegurar esta política. Não se pode simplesmente dizer aos recipientes de subsídios: vão oferecer-se. E tragam-me provas de que prestam esse serviço ou perdem o subsídio. Quem vai fiscalizar a integração destes desempregados e destes pobres, muitos sem formação específica nem qualificação? Quem vai formá-los nos lugares públicos e privados onde irão prestar serviços comunitários? Quem vai organizar a papelada que isto implica? Pois é, uma boa ideia corre o risco de precisar do Estado para a pôr em prática. Corre o risco, e conhecendo a nossa tradição é um risco real, de criar ainda mais Estado. Quem vai distribuí-los, ordená-los, arregimentá-los? Quem vai regular esta actividade suplementar? E se eles faltarem quem vai ter o poder de decidir que serão punidos? Quem vai aferir se as baixas médicas deste novo sector são autênticas? Muitos desempregados sofrem de depressão. Quem vai inspeccionar estas actividades para evitar abusos e explorações? Antes de prometer um programa destes, é bom que se diga como se vai praticar um programa destes. E com quem.

O mesmo para a frase sobre o Estado e os negócios. Ninguém está interessado em 'faces ocultas' e amigalhaços protegidos pelo poder político. Ninguém está interessado em manter gestores públicos que recebem mais do que os patrões privados das grandes empresas ou da banca. Neste assunto, Sócrates acumulou tantas dúvidas e erros que vai, também, ser liquidado por eles (quantos votos acha que custará ao PS a sua solidariedade voluntarista com Rui Pedro Soares, Vara e Mexia? Muitos). Assim sendo, como tenciona Pedro Passos Coelho explicar aos senhores do seu partido que estão desesperados por meter as mãos na máquina do Estado e usá-la para os seus negócios e para ganhar dinheiro (o PSD está falido) que a fonte secou? Como vai conseguir controlar os financiadores e dadores de dinheiro para o partido de que não haverá, para usar uma palavra em moda, contrapartidas? A nossa democracia assenta sobre o sistema das 'contrapartidas' e dos favores.

Eu não descreio das intenções sérias de PPC e não quero descrer da capacidade de as por em prática. A verdade é que o programa de limpeza do Estado só será possível com um bando de jovens turcos que rompa definitivamente com os hábitos e a tradição clientelar dos partidos e que rompa com o clube dos barões e baronetes que giraram em torno de Cavaco e do cavaquismo, que o alimentaram, que enriqueceram desmesuradamente à custa de duas maiorias absolutas e que proletarizaram o país no longo prazo para lucrar no curto prazo. E Cavaco, o homem íntegro sem desígnio, deixou que isto acontecesse fingindo que não via acontecer. E foi o seu cúmplice e aliado, o seu esteio e a sua garantia de impunidade. E continua a ser. Se aquilo que Passos Coelho diz é aquilo que vai fazer, então o cavaquismo dentro do PSD acabou de vez. E o PS que se cuide.

Texto publicado na edição da Única de 17 de Abril de 2010