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Expresso

Clara Ferreira Alves

O Pires em betacam

JOSÉ CARDOSO PIRES morreu há 10 anos. A publicação de "Lavagante", um texto inédito editado por Nelson de Matos, pode ser que contribua para que voltem a lê-lo ou pelo menos a lembrar-se dele. Como o Zé Cardoso Pires já não está cá para se defender do esquecimento, e não pode ir à televisão, dar entrevistas e de um modo geral ser famoso e vivo, temo que deixem de o ler. E, deixando de o ler, uma parte da língua e da literatura portuguesa contemporânea fica na gaveta. "Lavagante", texto inacabado e que escapou ao crivo e à minúcia com que ele apurava a prosa publicada, tem logo no princípio duas ou três frases à Cardoso Pires. Explica o autor o que é o lavagante, que dá o título ao livro. O lavagante "é principalmente um animal de tenebrosa memória, paciente e obstinado, e terrível nos seus desígnios. Contei-lhe como ele serve o safio que está nas tocas submersas levando-lhe comida a todas as horas, e como a sua existência anda presa a essa serpente estúpida de grandes sonos, vendo-a engordar, engordar, até saber que a tem bloqueada, incapaz de sair do buraco porque o corpo cresceu de mais, e enovelou-se, e não cabe na abertura por onde podia libertar-se. 'Nesse momento o lavagante servil aparece à boca da toca do safio mas já não traz comida. Vem de garras afiadas devorar o grande prisioneiro que alimentou durante tanto tempo'".

Uma das forças de Cardoso Pires era esta, a da observação com justeza da vida dos animais, sobretudo humanos. Os outros serviam apenas, com a natural ingenuidade dos irracionais, para demonstrar a validade do darwinismo como doutrina explicativa da maldade. O Zé não gostava muito de gente sem qualidades, e usava nomes de animais para definir certos espécimes que ainda por aí andam, expelindo veneno. Havia o "lacrau", um muito azedo e "mau como as cobras", havia o "lagarto", um "frio, de olhinhos gelados e parados", havia o "crocodilo", que "tinha uma boca maior que o corpo", etc., etc. A graça do Zé consistia em cobrir a sua atitude moral, que enforma a sua literatura, de uma camada de fina ironia e desdém. Não gostava de répteis.

Tive a percepção, quando convenci o Joaquim Sapinho da Rosa Filmes, e a RTP, a fazermos um filme sobre o Zé quando ele já estava muito doente e cansado, de que alguma coisa daquela figura devia ficar registada, alguma coisa que cristalizasse o seu humor e a sua inteligência lúcida, para além dos habituais apontamentos que a televisão atira para o arquivo e a poeira. Não por causa de ele ser um dos meus mestres e amigos. Por causa de ele ser um dos raros escritores que sabia exactamente o que lhe saía da mão e que sabia quão difícil e demorado é o trabalho da escrita. Nele, a grande tensão era a da vida contra a obra. Cardoso Pires gostava da obra, que o fazia sofrer, mas gostava tanto da vida como da obra, o que fez com que nunca tivesse tratado o seu talento como um profissional. Os colóquios e circunlóquios e conferências e deferências da vida dos escritores, e da vidinha, davam-lhe um tédio de morte. Uma vez telefonou-me de um qualquer lugar em França onde o tinham convidado a debitar umas frases sobre "a literatura" e, "chateado que nem um peru", outro animal, fechara-se no quarto do hotel e faltara a um dos colóquios. "Bebi-lhes o uísque velho todo do minibar", sorria ele do outro lado do fio, enquanto descrevia o ambiente soturno em que pequenos e médios escritores forneciam grandes explicações teóricas para a sua doirada mediania. "Já não aguentava, pirei-me."

O Pires pirava-se muito, colocava entre ele e o mundinho uma distância e uma reserva. Quando deixou de fumar teve dificuldades em escrever, o cigarro estava colado ao neurónio. Quando lhe disseram que tinha de deixar de beber foi a gota de água, um líquido que ele detestava. Sem cigarros e sem álcool, sem bares e sem noite, sem vida e sem graça, o Pires não conseguia pensar. Com lentidão, foi-se acabando, percebendo que o mundo já não era tão divertido como dantes. O filme, que acaba com um belíssimo fado cantado a seco pelo Carlos do Carmo, contém um epitáfio do Zé, e foi muito bem realizado pelo Manuel Mozos, em condições extremas, com o Zé exasperado com as pequenas coisas, a chave esquecida da casa da Caparica onde ele escrevia, o degrau onde ele tropeçava, a ditadura da luz nos passos do filme. Ele gostava era dos almoços de intervalo, restaurantes passados que servissem mão de vaca, pernil de porco e animais comestíveis. Ao entardecer, rumava ainda ao Procópio, a ver se estava por lá um amigo, o Nuno Brederode ou outro, que lhe fizesse companhia e conversa. Nos velhos tempos, ia com ele muitas vezes ao bar do velho hotel Britânia (hoje recuperado), conversar sobre livros, filmes, coisas. E como as conversas eram tão literárias, cheguei a reunir uma dúzia de cassetes de gravação com elas. Eram lições. Nunca as desgravei, e jazem num suporte desaparecido, como aquela Lisboa que ele amava e conhecia. O filme para a RTP foi em betacam, e quando agora o quis rever descobri que não o tinha em DVD, e que o sistema não aturava cassetes. O tempo parece querer impedir o Zé Cardoso Pires de ser lido, visto, lembrado. Este país não é para velhos.

Clara Ferreira Alves