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Expresso

Clara Ferreira Alves

O palhaço pedófilo e outras histórias

Clara Ferreira Alves

Clara Ferreira Alves

Escritora e Jornalista

Resolvi ir almoçar ao McDonald's. Tenho um fraquinho por junk food quando não me apetece cozinhar. E tenho um fraquinho por McDonald's. Fico nostálgica. Era uma vez na América... um tempo em que não tinha um tusto nos bolsos e os prodigiosos Big Macs me mataram a fome. Ainda não havia McDonald's em Portugal. Recordo com saudade o jingle: there is something about a Big Mac that keeps you coming back (há qualquer coisa num Big Mac que o faz voltar para trás, etc.); e que acaba: at McDonald's we do it all for you.

Certíssimo. Lembro-me de estar na baixa de Filadélfia ao entardecer, a tropeçar nos corpos caídos dos sem-abrigo que naquela altura eram só homeless não traduzidos, e a pensar que tinha tanta fome e tão pouco dinheiro que quase nada me separava dos veteranos do Vietname com cartazes ao pescoço, dos drogados e das vagabundas com sacos de plástico e restos de bâton nos lábios. Entrei num McDonald's e a noite iluminou-se como nos contos de Natal. Andava a ver a América. A América era, entre outras coisas, a melhor junk food que alguém pode conceber.

Casa dos bravos e terra dos livres, certo, e também a terra do admirável hamburger. E do gelado com pedaços e muita nata e dos churrascos texanos e do pão de milho e das panquecas com xarope e mirtilos e da coca-cola e dos chocolates Hershey (pouco cacau e muito açúcar) e da torta de maçã caseira acabadinha de retirar do congelador e aquecida, e das costelas fumadas e dos bifes de um quilo mal passados e de bacon com tudo e de manteiga de amendoim com quase tudo. E do muffin. E do donut.

O donut ia dando cabo de mim. Impossível não amar a América. Inventaram tudo o que faz muito mal e é muito bom. Desde a CIA ao HBO e a Hollywood (ok, há o George W. Bush e a Palin made in Alasca, ninguém é perfeito). Deixem os hamburgers em paz.

Recapitulando: não teria visto a América sem McDonald's e fiquei cliente. Sei os que têm a melhor salada, a melhor carne, a melhor apresentação, o melhor salão. O meu favorito, se apreciamos drama, é o de Times Square, iluminado por néons eternos e onde a qualidade crepuscular da luz e a diversidade da condição humana (para fazer um bonito literário nisto de hamburgers) predispõem à afabilidade e a terminar a refeição com um sundae de chocolate. É um lugar saído de um videoclip dos anos 80, com Blondie e David Byrne, we are on the road to nowhere, etc, (certíssimo).

Nem faltam por ali uns exemplares do que resta dos homeless da zona, tão cheia de turistas que as prostitutas, ladrões e passadores de droga se afastaram envergonhados. Noves fora a invasão dos asiáticos vendedores de quinquilharia digital com e sem pilhas. Times Square indigente e decadente, foi-se. E eu continuo a gostar de Times Square. No que respeita a Nova Iorque não tenho absolutamente nenhum critério. Aquilo, mais a Broadway, é um banho de energia, melhor do que 50 sessões de postura no tapete, meditação transcendental e iluminação budista. Só de falar nisso vem um afago quente ao coração.

A seguir ao estabelecimento de Times Square vem o de Fez. Exactamente, Fez, Marrocos. Sendo que o de Tânger também não é mau. Experimentem apanhar com o Ramadão e o jejum e o enjoo de couscous e saberão do que falo. Seis da tarde, tudo fechado, e o McDonald's de Fez serve-me um Big Mac e uma sopa, a deliciosa harira (achavam que era só em Lisboa que eles tinham sopas?). E uma menção honrosa para o do Rio de Janeiro na Ataulfo de Paiva, Leblon, talvez a melhor carne hamburgada que comi em toda a minha vida. E gosto de hamburger sem u e sem acento no u, hambúrguer, e detesto que os espanhóis lhe chamem hamburguesa. Um hamburger é um hamburger é um hamburger como diria a senhora Gertrude Stein (outra invenção americana).

Ia eu dizendo que entrei excitada no McDonald's do meu bairro na Sexta-Feira Santa, dia de peixe e detesto peixe e gosto de pecar, quando deparo com o palhaço Ronald McDonald, amado pelas famílias felizes dos happy meals. Havia dois, um de madeira e outro em fotografia de cartão. O de cartão saudava com um grande sorriso.

Perguntei a uma criança: o que achas do palhaço Ronaldo? Imperturbável respondeu: tem cara de pedófilo. E eu: é porque nos filmes de serial killers pedófilos o assassino se veste de palhaço e tem balões? Não, é porque ele parece um bocado pedófilo. Onde é que já se viu isto? Que civilização é esta? Que perspicazes crianças, filhas da Net e do digital, são estas? Onde pára a infância? E depois perguntei pela máquina de Multibanco que costumava estar na entrada. Onde foi? E diz a menina do McDonald's: roubaram. A máquina? A máquina. Que saudades de Filadélfia, como diria W.C. Fields.