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Expresso

Clara Ferreira Alves

Exit o grande escritor

 

 

GRANDES escritores escrevem maus livros. A diferença entre os grandes escritores e os outros, incluindo os pequenos e os maus, é que os maus livros dos grandes escritores são melhores do que os bons livros de todos os outros. Philip Roth é um grande escritor. Nunca ganhou o Nobel e talvez não venha a ganhar, o que constitui, no caso dele e de Graham Greene, uma homenagem. O que está dentro dos romances de Roth é uma visão do mundo não suficientemente humanista nem politicamente correcta para agradar à Academia. Roth não pretende mudar o Planeta, salvar a humanidade ou descrever a condição humana. Muitos livros dele são sobre os trabalhos da literatura e o significado de uma vida literária. Os livros de Roth ajudam a perceber o que é isso da literatura e por que razão um escritor anónimo e póstumo, esquecido e desaparecido, ou por publicar, continua a ser um escritor. É também sobre os sacrifícios e renúncias que a actividade implica. Ele sabe que escrever ficção é uma vocação dura, é como escolher o caminho da missão de leprosos em África sem o bordão religioso. Graham Greene, que foi até à missão para perceber a vocação, falava na farpa de gelo no coração do escritor. Greene precisava de viajar para escrever, Roth viaja dentro do quarto. Há mais diferenças. Greene é obcecado pela culpa e a distinção entre piedade e compaixão (como católico em pecado) e Roth é obcecado pelo sexo (e as variantes misóginas do sexo) e a morte. Os temas são os do costume: sexo, amor, morte. O sexo, em Roth, é o membro, o pénis, não o acto ou, como se diz em linguagem bonita, a "relação sexual". O sexo é, para ele ou para o seu alter ego Nathan Zuckerman, um acto físico de paixão, modo de desmanchar e manchar a beleza do corpo da mulher, de a dominar. Roth é um obcecado pela mama (escreveu uma obra-prima, "O Animal Moribundo", Dom Quixote) e a fellatio e isto não cai bem em Estocolmo. Se Roth não fosse genial, as partes lúbricas dos romances seriam grosseiras. E continuam a ser insuportáveis, redimidas pela inteligência do autor e a mestria da narrativa. Como bom judeu, o que nele é tão importante como o catolicismo em Greene, Roth sabe que tem de evitar o tom expiatório da vítima que o ethos americano tanto aprecia. No último romance, "Exit Ghost", ainda não publicado em português, reencontramos Zuckerman, o escritor exilado na montanha da Nova Inglaterra, condenado à misantropia pela condição de escriba e por um cancro da próstata que o faz impotente e incontinente. Zuckerman não poupa o leitor aos pormenores da existência de fraldas de um homem que gosta de mulheres. Tântalo afasta-se de vez de Nova Iorque e dos suplícios e obriga-se a uma existência de eremita, em que o mundo e os outros são recordações ou imagens. Zuckerman não gosta muito de pessoas, e não acredita nelas. O romance, que foi desancado na "Atlantic Monthly" pelo polemista Christopher Hitchens ("deus Não É Grande", acabado de publicar na Dom Quixote) tem passagens frouxas e situações mal resolvidas pela técnica, e só tem duas personagens interessantes, Zuckerman, e o mentor morto de Zuckerman, igual a ele, E. I. Lonoff. O autor é a personagem. Tem também o melhor epitáfio da geração literária, e duas ou três reflexões sobre a literatura, Melville, Hawthorne, Conrad, Plimpton, Orwell, Hemingway, Mailer, que são master classes para quem gosta da arte. Mesmo quando é mau Roth é muito bom, e aprende-se a pensar com ele não pensando como ele. É péssimo no enunciado político do pós-11 de Setembro. Nenhum escritor americano consegue ignorar o atentado e a sua consequência, a guerra e a reeleição de um texano estúpido chamado George W. Bush. Os escritores americanos dependem da pátria e da história, e não escrevem romances europeus, escrevem romances americanos. O 11 de Setembro teria de entrar, como o assassinato de J.F. Kennedy, na história da literatura americana. Roth não consegue falar bem disto, não é o seu território. O mundo em que ele cresceu é o da Rússia contra a América, e da I e II Guerras. É o mundo que sobrou de Auschwitz e da morte da Europa e não o mundo dos conflitos do Médio Oriente ou dos combatentes do Islão. O seu território é o da vocação literária e custos, da morte da literatura no mundo do telemóvel, da comunicação fútil e do culto da celebridade. Roth, o erudito, não nasceu para isto, um mercado em que a biografia do escritor se torna em obra. E é por causa disto que Hitchens, que também se atirou a Graham Greene há pouco tempo, quer dar cabo dele. Não consegue. Por muitas páginas notáveis que Hitchens escreva, nunca conseguirá extrair delas um só efeito literário, ou uma emoção. Hitchens não sabe escrever romances, e suspeito que gostaria, ou não se preocuparia tanto com os maiores que o fazem, de Bellow a Amis ou Roth. Roth, em "Exit Ghost", escreve sobre si, a sua velhice, a sua doença, e as indignidades que nos esperam a todos. Escreve sobre o lugar terminal em que se renuncia ao amor e ao sexo. Roth não descreve paisagens, nem pessoas. Inscreve-as na consciência do leitor. Usa aqui a forma epistolar para assinar o epitáfio do mundo que o criou, o mundo dos grandes livros. "Houve um tempo em que pessoas inteligentes usaram a literatura para pensar. Esse tempo está-se a acabar." E o escritor é um fantasma de saída.

Clara Ferreira Alves